segunda-feira, 14 de agosto de 2017

TERAPIA COGNITIVA COMPORTAMENTAL E ARTETERAPIA: UM DIÁLOGO POSSÍVEL



Por Suzane Xavier Rocha - RJ
suzane.psi@gmail.com


         Quando terminei minha Pós-Graduação em Terapia Cognitiva Comportamental, fiquei pensando em qual tema abordar no trabalho de conclusão de curso. Comecei a refletir  sobre alguns estudos que já tinha feito e  resolvi me aprofundar nas pesquisas sobre Arteterapia, assim decidindo fazer o trabalho “Terapia Cognitiva Comportamental e Arteterapia – Um dialogo Possível”.


A dificuldade de encontrar uma bibliografia específica e pesquisas sobre o tema fez com que eu buscasse em minha prática clínica e em estudos complementares algum embasamento para esta articulação que até hoje me instiga e ainda se encontra em aberto. O texto de hoje é um fragmento deste fluxo de pensamentos.

Vejo que a criação artística induzida pode facilitar o surgimento de expressões não verbais, dando espaço para a “não palavra” e também para ressignificações. A partir do uso das técnicas expressivas de forma diretiva, a expressão por imagem estimula ao paciente à criação em cima de um tema proposto.  Isso me fez perceber o quanto a comunicação paciente x terapeuta enriquece e favorece todo o processo.


A importância deste dialogo baseado em respostas mescladas pela presença de reestruturações cognitivas, está em possibilitar ao individuo abrir as cortinas densas que ocultam-lhe seus ‘ esquemas inadaptativos podendo propiciar a identificação até que possa aprender a descortiná-los, com seus próprios recursos, através de suas criações, permitindo um crescimento de ser e estar, no aqui e agora. 



Importante lembrar que a imagem é um símbolo interno e que é a primeira construção da realidade interna antes da palavra. O psicoterapeuta precisa não apenas dominar objetivos e procedimentos relativos ao uso de técnicas às quais pretende aplicar (da Arteterapia e da Terapia Cognitiva Comportamental), mas antes de tudo definir, com clareza, os meios de adaptação de um recurso técnico ao outro a fim de estabelecer os objetivos à mobilização de conteúdos internos.


Percebo que o paciente que experiencia o processo na Arteterapia tem capacidade de expressar a complexidade humana através da grande multiplicidade de significados que são revelados em seus trabalhos. Ou seja, a arte tem a capacidade de não somente criar, mas despertar, elaborar, perceber, podendo ser considerada uma mensagem onde terapeuta e paciente poderão compartilhar uma experiência única podendo refletir sobre seus padrões de pensamento e suas crenças sobre si mesmo, o outro e o mundo.


Ao terapeuta compete facilitar as suas descobertas, ajudando-o no trilhar deste caminho. Ele é observador e ao mesmo tempo participante deste processo. Os materiais expressivos e as técnicas comportamentais são utilizados como veículos desta jornada. Assim, expressando-se, verbalizando suas dores, suas dúvidas, suas angústias, seus medos, experimentando, criando, destruindo, construindo, reconstruindo, uma caminhada para o interior e para o exterior é feita.


Hoje concluo com Dalai Lama, em seu livro “Uma ética para o novo milênio”, (1999): “Se pudermos reorientar nossos pensamentos e emoções e reorganizar nosso comportamento, então poderemos não só aprender a lidar com o sofrimento mais facilmente, mas, sobretudo e em primeiro lugar, evitar que muito dele surja’’ (p 12)”.




Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com

Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.



A Equipe Não Palavra te aguarda!



Referência Bibliográfica: 

CODIOLI, Aristides V.Psicoterapias Abordagem Atual .Artmed 1998

LAMA, Dalai. Uma ética para o novo milênio.


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Sobre a autora: Suzane Xavier Rocha 




Psicóloga, Pós Graduada em Terapia Cognitiva Comportamental 

Atuação: atendimento psicoterapêutico individual e grupo em Copacabana, RJ. 

Ministra palestras e treinamentos para empresas e públicos diversos

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

SÉRIE A CLÍNICA DA ARTETERAPIA: SOBRE O LIMITE DA PALAVRA





Por Eliana Moraes - (MG) RJ
naopalavra@gmail.com

“Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã...
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida...
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara...

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento....”

O Lutador, Carlos Drummond de Andrade

Neste ano em que completo 10 anos de prática clínica tenho feito o exercício de trazer à memória alguns pacientes que fizeram parte deste caminho, que me desafiaram e consequentemente me construíram e lapidaram como terapeuta. Pacientes que demandaram muito estudo, supervisão, mas sobretudo uma intuição aguçada para a escuta e o manejo naquele momento em frente ao (lado do) paciente. 

Sem dúvida um dos fenômenos que mais me intrigaram é aquele em que o paciente tomado por enorme angústia, não encontra palavras que lhe sirvam como expressão, que lhe organize e “sossegue”. Hoje vejo que não por acaso, intuitivamente nomeei o espaço que comportaria os registros dos meus estudos e pensamentos da minha prática profissional como “Não Palavra”.

Venho de uma primeira formação em psicologia ao qual somos orientados para o manejo prioritariamente a partir das palavras de nossos pacientes. Fui construindo meu caminho buscando orientação na literatura psicanalítica para a prática clínica e atualmente faço parte de uma escola de psicanálise para que cada vez mais me instrumentalize para uma boa escuta. 

Para Lacan o “inconsciente está estruturado como uma linguagem... Estruturado significa fala, meu léxico etc.”. A psicanálise é alicerçada na clínica estrutural, orientada (mas não engessada) pelos conceitos das estruturas psíquicas. E para Lacan “O que cria a estrutura é a maneira pela qual a linguagem emerge no início num ser humano. É isso, em última análise, o que nos permite falar em estrutura.” (LACAN in JORGE) Por este motivo ele tanto se dedicou aos estudos e à articulação da Linguística de Saussure com a psicanálise. Entretanto, ele próprio em um dado momento reconhece que o inconsciente é não-todo estruturado como linguagem, quando por exemplo o “real” comparece e falta a palavra, falta algum significante que dê contorno ao sujeito. 

A clínica me mostra que este fenômeno não é tão raro de acontecer. E como profissional da clínica da Arteterapia, nestes casos me lembro de Roland Barthes, um dos mais importantes teóricos da teoria da literatura e também um dos grandes filósofos franceses do Século XX: “A língua é fascista.”  Para Barthes “... a língua não é nem reacionária nem progressista, ela é pura e simplesmente fascista... porque o fascismo não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer.” (BARTHES in SYLLA)

Não acabe aqui o aprofundamento na densa teoria de Barthes, mas nos interessa saber que o autor associa o impacto das estruturas linguísticas ao impacto de um PODER sociopolítico e não se exime de convocar aos intelectuais e escritores a desempenharem um papel de resistência a este poder:

“... a resistência apenas seria possível fora do poder da linguagem, no seu além, mas este além que conferiria um espaço de liberdade, não existe...

Contudo, segundo o autor, o intelectual deverá ser persistente na resistência, embora esta se pareça com uma espécie de missão impossível...

Não havendo um exterior à linguagem num espaço fora ou além da linguagem, cria-se então este além no interior da própria linguagem, precisamente pela estratégia da criação de não-lugares...” (SYLLA)

Penso que a arte está para este “não-lugar” da linguagem e o arteterapeuta seu embaixador. 

Relato de caso


"Assim, cada arte chega, pouco a pouco, ao ponto em que se torna capaz de exprimir, graças aos meios que lhe são próprios, o que só ela está qualificada para dizer." (KANDINSKY)

Há cerca de um ano recebi na clínica uma paciente com o diagnóstico de transtorno bipolar em um quadro depressivo severo. Um membro da família assistiu o filme de Nise da Silveira e intuitivamente compreendeu que a arte poderia contribuir para alguém no limite de seu sofrimento. Assim, me procurou como arteterapeuta, endossada pelo psiquiatra e pela psicoterapeuta que a acompanhavam, pois notoriamente sua cognição e a fluência verbal estavam comprometidas devido a gravidade do quadro, mas também pelos efeitos colaterais do tratamento. 

Como fui procurada como arteterapeuta, justamente pelos potenciais terapêuticos da arte e seus materiais, propus uma “primeira entrevista” diferente, em que deixei disponível sobre a mesa diversos materiais de variadas linguagens da arte, como desenho, pintura, colagem e modelagem. Entretanto, ao meu primeiro contato com a paciente ficou claro seu estado de extremo esvaziamento, pensamento lentificado, fala monossilábica. Compreendi que aqueles estímulos se apresentavam como uma poluição de todas as ordens e decidi começar “do zero”. Lancei mão de uma mandala para colorir e pedi que ela preenchesse aquilo que estava vazio e trouxesse cor ao que não tinha. Após alguns instantes ela começou a esboçar alguns movimentos. Seus traços enfraquecidos, seu ritmo lentificado e os espaços que ainda permaneceram em branco me contaram um pouco mais sobre aquela pessoa. Saltou-me aos olhos que a área interna da mandala foi preenchida com cores quentes e os elementos da periferia permaneceram vazios. Ela estava “voltada para dentro” mas ainda havia energia ali. Eis uma primeira entrevista sem uma palavra. 

O trabalho foi seguindo seu curso através das cores. Orientada por uma de minhas grandes referências teóricas para a prática da Arteterapia, Wassily Kandinsky, as cores possuem a capacidade de agir como um estímulo psicológico e sensorial. Cada cor possui um conteúdo intrínseco próprio, um conteúdo força, uma potência. Apostei que as cores poderiam “afetar” ou “provocar” algum desejo ou movimento nesta moça, além de que por sua “simplicidade”, poderiam servir de linguagem expressiva para alguém tão embotado. 

A cor preta apareceu de forma natural e apostei em trabalhar o significante “bipolar” – para além de um diagnóstico, mas um movimento humano da oscilação entre os opostos, paradoxos e antagonismos - através das cores preto e branco. Foram feitos diversos trabalhos explorando a polaridade preto/branco mas também a percepção aguçada e o investimento no degradê, nas diversas tonalidades ou possibilidades que existem entre eles, o(s) cinza(s). 

Em seguida passamos a explorar outras polaridades em cores. Tomando como referência a teoria das cores, o círculo cromático é dividido por cores que podem ser consideradas opostas/complementares (deixo aqui a sugestão de pesquisa e aprofundamento deste tema pois em muito contribui para meu olhar na clínica da Arteterapia como um todo). São elas vermelho/verde, azul/laranja, amarelo/roxo. Esta última polaridade escolhida pela paciente a ser trabalhada. 

Em um dos trabalhos a partir deste estímulo, desta vez através da colagem, a paciente produziu a imagem que ilustra este texto (mediante sua autorização). Esta foi a primeira vez que estes símbolos, que ao longo do processo se tornaram recorrentes, se constelaram em imagem. Formas como um rolo ocupavam a cabeça, mas por algum motivo a boca era impedida de expeli-los. Esta imagem me impactou profundamente pois percebi que incialmente não se tratava de interpretar ou descobrir qual era a natureza do impedimento para a boca. Tão pouco o caso de minimizar ou deslegitimar aquele impedimento e solicitar, demandar sua fala. O fato era que havia ali um ser humano sem nenhum comprometimento do aparelho fonatório, em profunda angustia pois pensamentos a consumiam mas eram  interditados à palavra. 

Porém, a imagem gritava. Por imagem falou. E ali mais uma vez tive a certeza que a arte, os materiais, o ato criativo, servem de linguagem para aqueles que por algum motivo não podem falar com as palavras. 

Assim surgiu a questão da angústia, antes mesmo de suas questões pessoais,  diante da demanda externa para que ela produzisse palavras e falasse. Percebi que o setting arteterapêutico exerceria ali um outro convite à expressão interditada. Novos caminhos, novo vocabulário, novas “palavras-imagens” (ver texto de Beatriz Abreu aqui), nova comunicação. 

O profundo investimento pessoal que gradativamente foi emergindo a cada agir criativo me mostravam que estávamos no caminho certo. Com poucas ou nenhuma palavra aquela moça criava, se debruçava, explorava seus recursos como os materiais disponíveis a cada proposta, o espaço disponível no papel/superfície para cada trabalho, o tempo  de sua sessão (que em alguns momentos tornara-se curto). Estas expressões aguçavam minha escuta como arteterapeuta que sou, instrumentalizada para a escuta do processo, a escuta do agir. As imagens produzidas, riquíssimas de conteúdos, questionamentos pessoais além de críticas ao social altamente pertinentes. 

Se o amigo leitor espera por um “grand finale” para este relato, digo que ele não existe, pois ainda está em aberto – a vida é um processo. Esta moça segue na luta pela sobrevivência e pessoalmente sou muito empática a ela quando diz o quão é difícil viver. O que podemos dizer é que ela encontrou um possível, um caminho para dar passos  de enfrentamento rumo ao desconhecido da vida. 

Viver não é fácil. Mas, graças a Deus pela arte que nos estende a mão, oferecendo uma linguagem quando é impossível a palavra. 

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
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Referências teóricas:


JORGE, Marco Antonio Coutinho. Freud e a invenção da clínica estrutural in Futuros da Psicanálise.

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte.

SYLLA, Bernhard. Roland Barthes: “A língua é fascista”: aproximações a um topos da filosofia do século XX.


segunda-feira, 31 de julho de 2017

A UTILIZAÇÃO DA CAIXA DE AREIA NA ARTETERAPIA



Por Janaína de Almeida Sérvulo - MG
janainaservulo@gmail.com


A suíça Dora Kalff (1904-1990) é considerada a criadora da técnica terapêutica conhecida como Sandplay, ou Terapia do Jogo de Areia.  Essa técnica foi baseada no trabalho da psiquiatra inglesa Margaret Lowenfeld (1890-1973), denominado World Technique, ou Técnica do Mundo. Para desenvolver seu método, Dora Kalff agregou a este trabalho conhecimentos da Psicologia Analítica Junguiana, aliados à sua prática clínica com crianças. 

O jogo de areia é um método não verbal, não racional e criativo, que consiste na construção de cenários em uma caixa de areia, utilizando miniaturas. No método original, a caixa é padronizada e não são realizadas modificações, interpretações ou verbalizações sobre o cenário construído. Meu objetivo, no entanto, é apresentar a caixa de areia como uma das técnicas a serem utilizadas no processo arteterapêutico, enquanto mais uma possibilidade expressiva antes da elaboração verbal. 

Esta proposta se mostra bastante adequada para auxiliar pessoas que se apresentam inicialmente inibidas diante dos materiais plásticos. Quando isso acontece, ou quando já foram utilizados vários materiais e as técnicas se mostram repetitivas, a construção de um cenário na caixa de areia pode ser um ótimo estímulo para a pessoa se expressar. Uma outra vantagem é que a caixa contendo areia (que é, por si só,  terapêutica) funciona como um limite, um espaço seguro, onde os conteúdos expressos estão protegidos. Sem falar das miniaturas, que representam objetos, pessoas e lugares do mundo real ou imaginário, facilitando a materialização de angústias, temores e conflitos internos. Na prática, são diversos os exemplos de como essa técnica pode trazer elementos importantes do inconsciente, facilitando sua integração à consciência. 

Recentemente, acompanhei um pré-adolescente com quadro de medo e insegurança. Quando o convidei a se expressar na caixa de areia, escolheu personagens como bruxas e monstros para personificar seu medo. Posicionou-os e teve dificuldade de encará-los, pois suas expressões realmente o assustavam. Então, pedi que ele criasse uma outra cena, de forma que pudesse se sentir mais seguro.  E assim foram surgindo os heróis, com sua força e coragem; o mago, com sua sabedoria; uma fada e um anjo, que, com sua delicadeza e esperteza, enfrentaram os seres assustadores. Dessa forma, conseguiu se aproximar e pôde, concretamente, derrotá-los. A expressão no seu rosto, um misto de cansaço e alívio, mostrava que a luta contra os medos não havia terminado, mas uma batalha importante fora vencida. 


Outro caso interessante é de uma criança de cinco anos com sintomas de agressividade a partir da separação dos pais. Desde o início do processo, sempre representava uma cena de casamento. Até que um dia, ela desenhou “o cabelo da noiva”, de forma que lembrava claramente um olho a observar do centro de um labirinto. Percebeu a semelhança e aceitou a proposta de materializá-lo. Construímos juntas (a seu pedido), modelando a areia e criando passagens e impedimentos. “Tem que ter flores!” E, de repente, o labirinto estava todo enfeitado... “Não vou conseguir sozinha.” E então surgiram os pais... Sentiu falta de outras pessoas conhecidas e, ainda não satisfeita, acrescentou três princesas, posicionando-as, estrategicamente, para orientar o caminho. No final, encontrou a saída e comemorou, com as outras crianças, a descoberta do grande tesouro. De repente, disse: “eu queria meus pais aqui”.  Mas logo voltou a comemorar, já começando a compreender, mesmo tão pequena, que existem desafios que precisamos enfrentar sozinhos. 


Da mesma forma, a técnica é também bastante resolutiva com adultos e idosos. Depois de algumas sessões trazendo queixas e conflitos familiares, uma idosa começou a se dar conta de um intenso sentimento de solidão. Representou uma cena no deserto, identificando-se com uma árvore deixada de lado depois de ter dado seus frutos. Algumas sessões mais tarde, e depois de ter trabalhado a sua árvore interna, o cenário já era outro: representava o desejo de uma vida simples ao lado daqueles que ama. Apesar de continuar se sentindo sozinha, as cores, os personagens e a maneira como estavam dispostos mostravam vitalidade e movimento, o que não se via na cena do deserto, quando o que mais chamava atenção era a imobilidade diante de uma ameaça.

E assim, cada uma dessas pessoas teve a oportunidade de criar cenas imaginárias onde, aos poucos, foram se apresentando, trazendo seus conflitos, angústias, identificações e medos, materializando e reconstruindo os fragmentos de um inconsciente que se tornava cada vez mais claro, palpável e possível de ser integrado à consciência. Sonhos, decepções, confrontos... saindo de dentro, do mais íntimo do ser, para uma caixa mágica que aceita tudo, mas também limita, protege e transforma!


Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
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Referências Bibliográficas:


CRUZ, Maria do Carmo Cordeiro; FIALHO, Maria Teresa. A caixa de areia: técnica projectiva e método terapêutico. Análise Psicológica (1998), 2 (XVI): 231-241. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v16n2/v16n2a02.pdf

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Sobre a autora: Janaína de Almeida Sérvulo



Graduada em Psicologia pela UFMG, com especialização em Arteterapia pela FAVI, em convênio com o INTEGRARTE.
Atua como psicóloga e arteterapeuta em clínica particular em Belo Horizonte-MG e na rede pública da região metropolitana. Experiência de mais de 15 anos com atendimento individual e em grupo a crianças, adolescentes e adultos.
Para conhecer mais sobre seu trabalho, visite a página do facebook: @artisticamente7

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segunda-feira, 24 de julho de 2017

FENIX: PARA ALÉM DO CRACK – RESGATE DO FEMININO EM COMUNIDADE TERAPÊUTICA PARA MULHERES


Por Tania Salete - RJ, atualmente residindo em Fortaleza CE
taniasalete@gmail.com

Introdução:

            Historicamente a questão da drogadição era predominantemente masculina, tanto no Brasil quanto no exterior, entretanto a situação atual aponta outra realidade. O número de mulheres dependentes químicas está crescendo de maneira alarmante. Para exemplificar o fato, uma pesquisa realizada pela Secretaria de Desenvolvimento Social do governo de São Paulo constatou que o número de mulheres na região da “Cracolândia” praticamente dobrou em um ano: de 16% em 2016 para 34% em 2017, considerando que a pesquisa foi realizada em junho, ou seja, na metade do ano em curso.

            As pesquisas levantam outros dados importantes sobre a especificidade do tratamento voltado às mulheres. O público feminino é particularmente vulnerável ao uso de substâncias psicoativas que criam dependência, sobretudo por causa das questões hormonais, além de fatores sociais e comportamentais associados. No caso das mulheres, a quebra dos vínculos familiares, as questões relacionadas a violência doméstica, abuso de toda ordem, sobretudo sexual, o medo da perda dos filhos são fatores que contribuem para que haja maior resistência e adesão ao tratamento e possível recuperação.

Relato de Caso: Fênix, amor maior que o crack
Fênix* vivia no interior, família simples, a única mulher entre muitos irmãos. Desde pequena buscava se sobressair neste universo masculino, mantendo-se alerta, competitiva e nível de igualdade. Aos 15 anos, a família resolveu “vendê-la” para um homem mais velho, como pagamento pelo arrendamento da terra onde viviam. Fênix não concordou e resolveu fugir de casa. Veio para Rio de Janeiro, viver na cidade grande e se virar como podia. Foi trabalhar como empregada doméstica, mas logo se viu na condição de “escrava” da família. Pouco tempo depois estava na FEBEM, mas depois fugiu e foi morar numa comunidade e aos 18 anos conheceu um rapaz, porém foi abusada sexualmente e espancada. Ela o matou. Foi presa, condenada, cumpriu parte da pena e aos 23 anos retornou à comunidade e, em pouco tempo, já liderava uma quadrilha com 21 homens e uma “boca de fumo”. Ali conheceu o pai de seus dois filhos, mas segundo sua declaração: “Como era a única mulher naquele meio, tive que soterrar praticamente qualquer sentimento que demonstrasse fragilidade. O que começou como um ‘ganha pão’, passou a ser meu estilo de vida. A perversidade e a crueldade eram minhas marcas. Eu era respeitada e temida por conta das armas. Mas, ainda restava algum sentimento humano em mim, por causa dos meus filhos. Eu não queria que eles fossem atingidos pelo mundo em que eu vivia. Queria preservá-los de tudo aquilo”.
            Fênix pagava para cuidarem dos filhos, principalmente à noite, para que pudesse trabalhar em paz.  Materialmente supria as necessidades dos filhos, entretanto não conseguia ser carinhosa ou dar amor às crianças, embora estas insistissem que a mãe deixasse aquela vida porque era perigosa e poderia ser morta. Uma noite, Fênix quase feriu o próprio filho ao confundir a sombra dele com provável inimigo. Diante dos olhos assustados da criança, entendeu que era preciso parar e que não adiantava mais toda aquela vida louca.
            Milagrosamente, após um acordo, ( quem vive neste ambiente tem ciência que a possibilidade de sair “livre”/vivo deste círculo é nula) conseguiu sair daquele lugar,  deixar tudo para trás e cuidar realmente de seus filhos. Porém, Fênix sentia muita falta do poder, da adrenalina que a vida anterior proporcionava e para aliviar suas tensões, buscou as drogas. Só que desta vez, ela conheceu o crack. A partir deste episódio, Fênix foi perdendo o controle da situação, estava totalmente dependente da droga e já não cuidava mais dos filhos e nem de mais nada. Foi parar nas ruas, perdeu a guarda das crianças para o Conselho Tutelar e depois para o abrigo. Estava no fundo do poço, sentindo-se acabada. Mas recebeu ajuda e quis sair daquela escravidão. Foi para CT de mulheres.
Arteterapia: a arte do resgate
Segundo o psiquiatra Luiz Guilherme Ferreira Filho, do Caps AD, da Secretaria de Saúde Pública (Sesap) de Praia Grande/SP,  arte é neurociência, pela qual se alcança o inconsciente do paciente, colaborando para restabelecer o mecanismo de recompensa cerebral deturpado pela droga.  
“A Arte amplia o repertório de atuação do paciente. Ainda que não tenha talento, descobre que há outras formas menos nocivas de ter prazer.
Não é arte bela e nem feita para estar em galerias. É arte de resgate”.

            Quando conheci Fênix, era uma pessoa muito dura, bem masculinizada, não gostava de conversar, tinha um tom de voz agressivo, praticamente não sorria e não tinha nenhum cuidado com a aparência, embora isso fosse estimulado pela instituição.
Nas atividades de Arteterapia, no momento de compartilhamento, Fênix fazia questão de relatar sua situação anterior, o poder que exercia sobre os homens, como manipulava as situações a seu favor e sempre ganhava no final. 
            Em uma das atividades, após três meses de convivência na CT, abordamos o tema da autoestima,  autoimagem. A proposta era que elas deveriam “enfeitar” uma determinada imagem feminina da maneira que desejassem. Fênix, pela primeira vez em tanto tempo, teve oportunidade de acessar o distante mundo feminino, experimentar objetos e adornos que já não faziam mais parte de sua realidade. Aos poucos, foi se permitindo contemplar aquela imagem, enfeitá-la com adornos simples e até usou um batom bem clarinho. Um sorriso surgiu em seus lábios. No compartilhamento revelou: - “Não uso batom há muito tempo! Não gosto muito disso. Prefiro mais natural.

            Aos poucos, Fênix foi se desvelando, através do acesso aos materiais de arte, da crescente confiança que sentia em compartilhar parte de sua vida, tanto na equipe de trabalho, quanto no próprio grupo. Sentia-se livre para expressar suas emoções, a luta para vencer seus comportamentos adictos e a dificuldade em se relacionar com as outras companheiras. Em alguns momentos mais conflituosos durante a semana, houve a possibilidade no grupo para que Fênix se retratasse com alguém e restabelecesse um clima mais tranquilo no grupo e na própria instituição. Para nós, da equipe, era visível sua mudança, tanto no aspecto físico, quanto emocional: sentia-se mais segura, com autoestima mais equilibrada, entendendo melhor sua história, sobretudo em relação ao seu objetivo maior que era resgatar seus filhos do abrigo, ter condições de manter-se limpa e reconquistar sua condição de mulher e cidadã, capaz de gerir sua vida e de sua família.
            Em um dos últimos trabalhos que participou, em junho de 2016, confecção do quadro (colagem) e um caderno dos sonhos, ( Fênix manifestou seu desejo de encontrar um “homem de Deus, um amor verdadeiro”, pois nunca havia se apaixonado até então. Todos os seus relacionamentos anteriores, principalmente sexuais, foram sob efeitos da droga. Não sabia como se relacionar de outra forma.) Tinha  sonhos de viajar, voltar estudar e se formar,  de se casar, ter um marido que a amasse e que ela amasse também e principalmente  ter seus filhos de volta, ( resgatar e exercer sua maternagem** de fato),  reunir todos numa casinha, ainda que fosse simples.


            Nossos encontros duraram aproximadamente 18 meses e ao final deste tempo, Fênix já estava trabalhando fora da instituição. Havia conseguido provar ao Juiz e ao Conselho Tutelar sua plena condição de cuidar de si mesma e dos filhos. Com seu trabalho, já era possível pagar aluguel de uma pequena casa e agora seus filhos já estavam com ela, matriculados na escola e Fênix atualmente prepara-se para o ENEM em novembro.  Está namorando há mais de um ano e meio, ficará noiva em setembro e provavelmente seu casamento será no final deste ano.
A Arteterapia é uma ferramenta maravilhosa que possibilita que as pessoas se encontrem consigo mesmas, se percebam e resgatem sua essência e assim, contribui de maneira efetiva para restauração de pessoas que já se sentiam condenadas.
Fênix é um exemplo de alguém que lutou, que acreditou no amor e que os laços de mãe e filho podem sim tirar alguém do mais profundo poço.

* Fênix – nome fictício que adotei para esta mulher, pois como o pássaro mitológico, ela também ressurgiu das cinzas e da fumaça das pedras de crack para uma nova vida, com seus filhos e um novo e verdadeiro amor. 
** Gerar, gestar e parir é maternidade. Cuidar, amar, proteger, doar, ensinar é maternagem. Maternidade é instinto, maternagem é aprendizado. A maternagem é o útero das relações humanas.

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com

Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!
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Sobre a autora: Tania Salete


Graduação em fonoaudiologia, pós graduação em psicopedagogia. Especialização em Arteterapia pela POMAR, Rio de Janeiro, atuando com grupos terapêuticos e de apoio em casa de recuperação feminina e masculina. Atualmente residindo em Fortaleza.


Este é o segundo texto de Tania para o blog Não Palavra. Para ler o primeiro texto CLIQUE AQUI

segunda-feira, 17 de julho de 2017

ARTETERAPIA E FAMÍLIA: Novos Horizontes


Por Mércia Maciel - RJ
mercia.m@terra.com.br


Dando seguimento às minhas pesquisas sobre Arteterapia e família, tenho buscado, na medida do possível, direcionar o meu foco  para o contexto dessa articulação na pós-graduação em Arteterapia e Processos de Criação que curso no momento.

Assim é que, a partir de um trabalho sobre vida e obra de um artista (de qualquer época) para a disciplina de História da Arte e Estética, realizei uma pesquisa bibliográfica sobre a vida de um dos maiores gênios da história da arte no mundo: o holandês Vincent Van Gogh. Comecei contextualizando o período histórico em que viveu o artista e, em meio à farta e interessante bibliografia encontrada sobre o tema, uma me chamou a atenção em particular.
Trata-se da tese de Livre-Docência da psicóloga Claudete Ribeiro, apresentada ao Instituto de Artes da UNESP, em São Paulo, no ano 2000, intitulada “Arte e Resistência: Vincent Willem Van Gogh”.
Nessa rica análise é apresentada uma interessante reflexão a respeito do perfil psicológico do artista, a partir de sua obra e de sua correspondência com o irmão, mas também de seu contexto familiar. A autora considera que a história familiar de Van Gogh pode revelar muito a respeito de sua personalidade e trajetória de vida.
Entre outras questões levantadas, analisa o fato do nome do artista ser também um nome que se repete a cada geração da família, sendo Vincent Willem Van Gogh também o nome do avô paterno do artista, do tio paterno, do irmão natimorto que antecedeu seu nascimento e, por fim, do sobrinho dele, filho de seu irmão Theo. Sendo esse seu avô (assim como seu pai) um pastor calvinista e grande pregador e seu tio um artista reconhecido, Van Gogh, em busca por seu lugar no mundo, envereda primeiro pelo caminho religioso, para só mais tarde iniciar sua carreira artística.
A autora considera que, ao carregar o fantasmagórico nome, Vincent revelava uma dinâmica familiar de reedição das histórias, em que a família:
“... apresenta uma organização fantasmática por meio das figuras mitificadas e de um conjunto de crenças que foram partilhadas e transmitidas pelas gerações dos seus filhos, estabelecendo assim, os mitos como verdades ao longo da sua existência, de forma a preencher as necessidades de sucesso e poder da família, traçando o destino do Vincent, ora em estudo.” (Ribeiro, 2000)
Considero muito motivante esse tipo de análise sobre famílias de artistas, que no meu caso, pode apontar para um possível tema de dissertação na conclusão da minha Pós- Graduação.
Uma entrevista com Maíra Bonafé Sei
Dando continuidade ao compartilhamento dos meus estudos sobre o tema, apresento uma entrevista com a  Professora Dra. Maíra Bonafé Sei, PhD em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo e arteterapeuta, que gentilmente a concedeu especialmente para publicação no blog Não Palavra.  Trata-se de uma das poucas profissionais que se voltaram à pesquisa e à prática da Arteterapia com família no Brasil até hoje.
Confira:
Como profissional de Terapia Familiar e de Arteterapia, como vê a interlocução entre as duas áreas de conhecimento, seus limites e suas possibilidades?

Maíra B. S.- A Arteterapia se configura como um campo do saber que dispõe de ferramentas passíveis de utilização no cenário da terapia familiar, tipo de intervenção clínica que agrega participantes de diferentes idades. Por meio dos recursos artístico-expressivos, diminui-se a distância cognitiva entre adultos e crianças e lida-se com a censura habitual presente no discurso verbal, fato que incentiva o uso destes nos atendimentos de famílias.  

Como terapeuta de família, qual a linha teórica com a qual mais se identifica e como ela te ajuda no trabalho de arteterapia com famílias?

Maíra B.S.-  Minha atuação baseia-se na Psicanálise de Casal e Família, com foco na contribuição de psicanalistas franceses, que inclusive valorizam o uso de recursos mediadores no setting  terapêutico.

Como vê a atuação da Arteterapia com famílias hoje e suas possibilidades de avançar e se estabelecer no Brasil como campo de trabalho para o arteterapeuta? 

Maíra B. S. - Entendo que a Arteterapia com famílias ainda se apresenta de forma incipiente no Brasil, com poucos arteterapeutas com formação e interesse para atuar com este público. Compreendo tratar-se de um tipo de intervenção clínica de grande relevância social, ao se contemplar a família como um todo, grupo e relações nem sempre contempladas nos atendimentos individuais.

O que a levou a escolher essa forma de trabalhar? 

Maíra B. S.- Minha atuação com casais e famílias se iniciou em 2005, por meio de minha pesquisa de doutorado, de Arteterapia com Famílias no contexto da violência familiar, orientada pela Profa. Titular Isabel Cristina Gomes, vinculada ao IP-USP.

Compartilhe conosco um pouco sobre sua prática com famílias através da arteterapia.

Maíra B. S.- A prática de Arteterapia com Famílias pode ser conhecida por meio do livro "Arteterapia e Psicanálise" da editora Zagodoni. Além disso, tenho vários artigos publicados e que podem ser conhecidos por meio do acesso ao meu currículo Lattes.



Entre os Projetos de Pesquisa realizados pela Professora, estão o Catálogo de Textos Científicos em Arteterapia no Brasil” (integrantes: Maíra Bonafé Sei - Integrante / Cristina Dias Allessandrini - Coordenador / Margaret Rose Bateman Pela - Integrante)  e “Arteterapia com famílias e Psicanálise Winnicottiana: proposta de intervenção em instituição de atendimento à violência familiar” (integrantes: Maíra Bonafé Sei - Coordenador / Isabel Cristina Gomes – Integrante).
As diversas publicações da autora sobre o tema encontram-se elencadas no site do CNPq citado acima pela autora.

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com

Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referência:
RIBEIRO, Claudete. ARTE E RESISTÊNCIA: Vincent Willem Van Gogh. Tese de Livre- Docência apresentada ao Instituto de Artes da UNESP, São Paulo, SP, Brasil, 2000. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/116108/ribeiro_c_ld_ia.pdf?sequence=1
Acesso em: 22/06/2017
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Sobre a autora:

Mércia Maciel

Assistente Social pela UFF (1994), pós-graduanda em Arteterapia e Processos de Criação pela UVA.
Experiência como assistente social: atendimento de família, dependência química, e crianças em situação de abuso.

Para ver os textos anteriores de Mércia Maciel CLIQUE AQUI e CLIQUE AQUI