segunda-feira, 21 de maio de 2018

LEONILSON – Bordando a vida, as dores e os amores


Por Tania Salete – RJ, atualmente residindo em Fortaleza CE
taniasalete@gmail.com

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A CASA COMO METÁFORA DO EU: UMA PROPOSTA ARTETERAPÊUTICA


Por Fabiana Juvencio – Vitória ES
fabiana.decore@gmail.com


A ponte para esse trabalho veio a partir da minha própria experiência familiar com a “casa”, casa como expectativa de lar e as experiências profissionais com as casas dos meus clientes e suas necessidades e conflitos. Cada um de nós absorve nossas bagagens a partir do que vivenciamos em casa, com nossos entes queridos e é nessa casa que simbolicamente acumulamos nosso conhecimento de vivências dentro de cada momento da vida, o que mudamos, o que trocamos, o que acumulamos, o que nos desfazemos, o que reformamos.

A casa como lar pode nos direcionar para um local harmônico onde se respeite o “espaço” de cada um, tanto o espaço físico como o espaço emocional, nos libertando de esferas condicionantes e crenças limitantes que carregamos ao longo do tempo. “O lar é um espaço único, onde nos desarmamos e vivemos de modo autêntico. Por isso, é essencial ter as necessidades atendidas nesse espaço para sermos felizes” segundo Angelita Scardua.
Minha experiência de vida e pessoal no contexto casa
Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Tudo pode ser revelador: se deixamos a comida estragar na geladeira, se temos a mania de deixar as janelas sempre fechadas, se há coisas para consertar. Isso também é estilo de vida.

Há casas em que tudo o que é aparente está em ordem, mas reina confusão dentro dos armários. Há casas tão limpas, tão lindas, tão perfeitas que parecem cenários: faz falta um cheiro de comida e um som vindo lá do quarto.

Há casas escuras. Há casas feias por fora e bonitas por dentro. Há casas pequenas onde cabem toda a família e os amigos, há casas com lareira que se mantêm fria, há casas prontas para receber visitas e impróprias para receber a vida.
Pode parecer apenas o lugar onde a gente dorme, come e vê televisão, mas nossa casa é muito mais que isso. É a nossa caverna, o nosso castelo, o esconderijo secreto, onde coabitamos com nossos defeitos e virtudes.

A minha casa na infância não era o melhor lugar do mundo de se viver, ainda estou (re)descobrindo se há alguma coisa boa, pois o que ficou, honestamente falando, foram as vivências mais tristes, me faltou um sentido de pertencimento. Erroneamente eu me enganei durante muito tempo em acreditar que a beleza e a estética dariam um sentido e preenchimento ao vazio do meu peito. Talvez seja por isso que veio a compensação da profissão designer de interiores, creio que ao longo da construção de mim mesma eu me “perdi” em fantasias, para construir um mundo imaginário para mim. O fato é que eu cresci e acabei trazendo a fantasia para a vida adulta de forma negativa.

Mas os enganos também foram um caminho, um caminho para a reforma de mim mesma, a engenharia interior só foi e está sendo possível a partir dos erros ao achar que o problema era o outro.

A arteterapia e o diálogo com outros saberes: O desing de “interiores”      

Esse projeto propõe como possibilidade trabalhar os espaços internos de fora para dentro, trazendo como auxilio o próprio ambiente e seus referentes simbólicos. Trazemos reflexão sobre a reforma íntima quando buscamos na arrumação externa um referencial do que se reorganiza internamente, o teto, a fachada, os cômodos com seus quartos, cozinhas, salas e varandas como propostas simbólicas das projeções do eu, a casa lúdica. A reforma íntima nos possibilita escolher com quais materiais iremos trabalhar nossos ambientes internos, nossas bases e pilares fortes nos motivando ir além e exercitar as nossas motivações, sonhos, desejos e significados, quais são nossas metas e objetivos. A reforma intima é o caminho para conhecer a engenharia de si mesmo, para reconstruir aqueles ambientes internos que estão esquecidos ou saturados, entulhados de coisas que precisam ser doadas, reformadas ou descartadas.

“A casa como metáfora do eu: Um processo arteterapêutico” foi tema da minha monografia no ano passado. Foi uma jornada do herói literalmente e o trabalho se deu em um estudo de caso com uma atendida de meia idade, super jovem com grandes sequelas de abandono deixada pelo complexo materno onde suscitou uma criança ferida e recuada. Foram 10 encontros no qual os espaços da casa e objetos da casa nos levavam para ambientes projetados na infância, nestes momentos usei muitos recursos da imaginação ativa/meditação ativa para adentrar no mundo obscuro da criança interna que estava ferida e isolada.

Numa vivência muito intensa, em nosso quinto encontro, saímos do setting arteterapêutico e partimos para conhecer a   casa da atendida. A importância de cada espaço, objetos, mobílias, seus significados e como cada ambiente se mostrava como seu lar. Como na arteterapia nada é estático, o que levamos como proposta pode se desdobrar em outros caminhos, acredito que como veículos, somos apenas condutores do “Cosmo, Universo, Poder Superior, Sagrado, Eu Sou, Divino, Consciência”. O Deus da forma que cada um concebe, somos condutores de um poder maior e é esse poder que traz o que precisa vir, é nessa energia que se dá o fazer arteterapêutico e sua “mágica”.  Cheguei com flores, margaridas simbolizando beleza e doçura, aroma e serenidade, dessas flores mais adiante se daria outros contextos.




A proposta era que a atendida trouxesse 3 objetos significativos que ela escolheria na casa. Ela me trouxe dois portas retratos com fotos dela com 4 ou 6 anos e o da filha com 7 e um colar de pérolas. Essas peças e imagens reverberaram emoções profundas. Pedi que falasse de cada peça, mas ao pegar a foto dela na infância declarou que olhar para aquela criança era difícil e que não tinha nada para falar. Perguntei o que ela via ao olhar e ela disse que não via nada, nada e ao mesmo tempo que começou um choro profundo. Foi um momento intenso que usei a música “Meu jardim” do Vander Lee como fundo e reflexão e pedi que ela expressasse em desenho o que reverberou dos retratos que ela trouxe. O que veio? Uma trajetória entre mãe e filha e um labirinto de uma criança querendo achar o caminho da saída.





De repente ela ajunta as duas folhas e me mostra, numa união, que há um desdobramento. Peço que me explique como se deu aquilo para ela: “Eu quero sair desse emaranhado que estou presa, não consigo ver NADA na criança que fui, sempre quis esquecer.” Digo que há uma criança ferida dentro dela querendo ser resgatada e acolhida, uma criança interna ferida que precisa ser protegida por ela hoje adulta. Faço algumas indagações sugestivas, e peço para ela olhar novamente para as imagens juntas, a criança ferida lá na ponta direita, o caminho do labirinto triste, o sol, o portal, as duas meninas. Peço para ela fazer uma retrospectiva interna, a trajetória com a filha, sua adoção, o anjo que ela se tornou. Peço pra olhar de novo, pra ela mudar os papeis do desenho, peço para ela adulta se colocar no lugar da filha de verde, falo que ela pode ser a menina de verde, ela pode começar a fazer uma nova caminhada, uma nova trajetória na busca de curar a si mesma, de cuidar da sua criança ferida e começar um processo de “maternagem de si mesma” no sentido de (re) descobrir um novo caminho na aproximação do contato com sua criança interior ferida e abandonada.

 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.


A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:

ANGELITA SCARDUA - A casa e seu significado: Refúgio para o bem estar físico e emocional. (On Line) https://angelitascardua.wordpress.com/2011/08/02/a-casa-e-seu-significado-para-o-bem-estar-fisico-e-emocional/ Acessaso em 20/08 2017
ANIELA JAFFE, CARL G. JUNG, JOLANDE JACOBI E M-LOUISE VOM FRAZ – O Homem e seus Símbolos.
Gomes Filho, João – Ergonomia do objeto
___________. Design do Objeto: Bases conceituais
Leslie, Vera Fraga. Lugar comum-Auto ajuda de decoração e estilo.
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Sobre a autora: Fabiana Juvêncio



Formada em Gestão de Marketing
Técnica em design de interiores 
Arteterapeuta 
Atua como designer de interiores e como arteterapeuta numa clínica de reabilitação trazendo a abordagem da arteterapia e o programa de 12 passos dos anônimos(AA) fazendo uma junção das partes com foco na “neurose” para o trato de drogas de escolha.
Como voluntária, trabalhou na Secretaria municipal de políticas públicas para mulheres e no Centro de Referência Especializado de Assistência Social para População de Rua (Centro-POP)

segunda-feira, 7 de maio de 2018

REFLETINDO SOBRE MONOTIPIAS


Por Liane Esteves - RJ
lianeesteves@gmail.com


As águas de Março lavaram minha Alma e os excessos, prepararam a terra para receber as folhas secas, que plenas de histórias adubarão o solo onde dormirão em sono profundo. Uma profusão de imagens emergirá dos sonhos e inspirará os rebentos da Primavera! E então novas emoções serão gravadas, novas impressões surgirão num ciclo ininterrupto de renascimento e morte, de cujas cinzas surgirão as novas estações.

Em um momento propício e fecundo, durante o recesso de carnaval de 2018, me recolhi com a finalidade de refletir sobre meus estudos recentes para uma série de oficinas que desenvolvi com o objetivo de pensar e praticar terapeuticamente a linguagem da gravura. Após meses de gestação dessas oficinas, que denominei “Gravando Emoções”, minhas percepções jorravam como as chuvas de verão. Um dia após a quarta-feira de cinzas acordei com as palavras brotando pelos poros. Com o lápis na mão deixei grafado esse turbilhão de pensamentos e emoções. Durante um mês, em sincronia com as águas de Março que fechavam o verão, cuidei e reguei essas emoções e reflexões em sua própria água, uma verdadeira solutio. Ao findar a estação, tinha concluído a primeira parte desse projeto, minhas impressões sobre a monotipia, cujo resultado eu partilho abaixo. 


            A monotipia é considerada uma técnica simples da gravura, consistindo na pintura de uma imagem sobre uma superfície plana (ferro, metal, vidro, madeira etc.), seguida de sua impressão em uma folha de papel. É tão simples que costuma ser usada em escolas com crianças bem pequenas. Porém tamanha simplicidade nos remete a reflexões bastante profundas revelando complexidades que nos escapam em uma observação superficial. Compartilho da opinião de Oscar Wilde* quando disse: Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo.

Se formos pensar na complexidade de nossos pensamentos e ações, não pensamos, escapamos. É nesta fuga que as imagens nos inundam, vindas de um inconsciente reprimido e sombrio. Elas vêm em sonhos, pinturas, desenhos, colagens, modelagens, poesias e onde mais permitirmos. São estranhas, incompreensíveis, enigmáticas e muitas vezes tão bonitinhas que nos permitimos enganar com sua beleza, fofura e graça. Desviamos o olhar daquilo que é potente, da mensagem oculta por onde deveria ir o pensamento. Simplificamos! E ainda completamos com frases como: Tá tão bonitinho...; Ihhh tá horrível...; Não sei fazer isso...; Credo que horror...; Adorei...; Amei...; Não entendi nada...; Que doideira... Depois simplesmente jogamos fora, guardamos na gaveta, enfiamos embaixo do tapete, ou deixamos esquecido em qualquer canto escuro e profundo. Ahhhhhh, respiramos aliviados! Pronto, resolvido! Será?

Andei pensando num remédio para isso, um remédio bem simples para cuidar das coisas que insistimos em simplificar. Algo parecido com o princípio da homeopatia: semelhante cura semelhante. O remédio chama MONOTIPIA, aquela mesma que expliquei ali em cima, lembra? Simples, tão simples, que até criancinha faz (sem desmerecer as crianças, por favor)!  A cura? Esta acontece quando compreendemos a frase de Oscar Wilde, ou quando uma pulga atrás da orelha nos faz levantar o tapete e ver quanta coisa tem ali debaixo. Na realidade, vamos levantar a folha de papel (e não o tapete) para ver o que aparece! Explicarei melhor na receita do bendito remédio que coloco a seguir.             

Passo a passo para fazer uma monotipia:

1- pegue uma superfície plana (ferro, metal, vidro, madeira etc.) menor ou igual ao tamanho de uma folha qualquer de papel (de preferência com maior gramatura);
2- faça uma pintura sobre ela com guache ou outra tinta que disponha;
3- pegue a folha de papel e coloque delicadamente sobre a pintura;
4- passe a mão por cima de toda a folha, fazendo certa pressão para absorver a tinta e a pintura que você fez;
5- retire delicadamente a folha, puxando por um dos cantos;
6- observe a imagem que ficou impressa na folha; 
7 - observe como ficou a pintura original sobre a superfície que pintou. Se desejar continue imprimindo outras folhas, quantas quiser ou até não sair mais tinta nenhuma. Estas impressões são chamadas de fantasmas (você vai descobrir por que).
Simples, não?

Um detalhe é muito importante nas monotipias: você pode se automedicar à vontade e sem efeitos colaterais, mas nada disso vai funcionar se a base do processo não for um caminho focado no autoconhecimento e conduzido por um bom arteterapeuta ou psicoterapeuta que utilize as linguagens artísticas em seus atendimentos. O mínimo que pode acontecer é você se divertir bastante, mas também pode se chatear se não gostar de surpresas, pois elas acontecem em monotipia. O máximo e o desejável de acontecer é descobrir um atalho para o refúgio das complexidades, parafraseando Oscar Wilde. É pegar o ego no pulo!

Por coincidência (sincronicidade, como diria nosso caro Jung) o item sete do passo a passo que criei acima é justamente a etapa que revela os fantasmas! Incrível, não? Lembrem-se que o sete é considerado um número sagrado, místico e mágico. Mas não tem magia nem sobrenaturalidades, são vestígios, pistas. Cá para nós, acho que tem muita alquimia, mas isso já é outro papo.

 O que de fato acontece no item sete da monotipia é que as imagens impressas são fantasmas ou vestígios da pintura original. A cada nova impressão os vestígios ficam mais tênues, os excessos vão sumindo e revelando aquilo que é simples e que ficou perdido em nossa complexidade. Ou então, revelando nossa complexidade de forma muito simples.

É simples, porém complexo ao mesmo tempo. Tentarei elucidar alguns aspectos desse processo.

Inicialmente gostaria de esclarecer que o termo monotipia sugere apenas uma impressão (do grego: monos – um e typos – impressão). Mas não precisamos ficar limitados à nomenclatura, podemos chamar os fantasmas para ajudarem a clarear a situação e limpar os excessos.  Edgar Degas (1834-1917) fez belíssimas obras a partir de fantasmas, só para citar um exemplo na história da arte.


Em se tratando de processo terapêutico, a primeira impressão da monotipia já é bastante reveladora. Em primeiro lugar porque ela traz a imagem invertida da pintura feita, como num espelho. O que se pintou sobre a placa se mostra diferente ao levantarmos a folha, está ao contrário e causa surpresa, às vezes até estranheza. As nossas verdades absolutas nos pregam uma peça, percebemos a realidade por outro viés, enxergamos por outro ângulo forçosamente, pois o que fizemos originalmente não é o que se revela para nós. Temos a possibilidade de ver o outro lado da moeda, analisar de outra forma o que foi feito. Será que o que fazemos tem apenas uma versão, será que podemos pensar e ver nossos gestos e atitudes de outra maneira? É bastante interessante sugerir a monotipia para pessoas que não conseguem perceber situações de forma clara, para as que estão habituadas a agir sempre da mesma forma com padrões fixos e enrijecidos, ou para os perfeccionistas. Mas também funciona em outras situações, pois é uma oportunidade de avaliar e ver uma nova perspectiva, de criar novas formas de atuação a partir de um olhar diferente ou invertido sobre o que se faz, de criar novos caminhos e soluções, de descobrir que pode haver uma forma mais interessante de pensar. Também podemos nos questionar quanto à nossa impressão sobre nossas atitudes e como na verdade elas se mostram na impressão feita sobre a folha. O que fazemos? Como se revela? Como impressionamos, ou como nos deixamos impressionar, também são reflexões possíveis e cabíveis na monotipia.
As demais impressões ou os fantasmas são depurações. A imagem vai sumindo até desaparecer completamente, se prosseguirmos com o processo. Vamos retirando matéria, camadas de ilusão que construímos ao longo da vida, vamos clareando e simplificando as situações.  Às vezes basta um fantasma para dar conta do recado, outras vezes pode-se precisar de mais alguns. Não tem receita de bolo, depende de cada caso. 
Eventualmente o impacto das impressões pode ser grande e é sempre prudente oferecer outros materiais como lápis de cor, pastéis ou canetinhas para aplicar sobre a monotipia seca. É um momento importante de resgates e constatações, de corrigir falhas, de dar novas cores e formas ao que se revelou.
O gesto ao pintar e imprimir é bastante simbólico e denuncia comportamentos rotineiros nas mais variadas situações. Podemos colocar muita ou pouca tinta, movimentar o pincel de forma ampla ou restrita, pressionar delicadamente o papel ou colocar todo o peso do corpo sobre ele. A tinta pode escorrer e extravasar pelas bordas do papel, pode ser suficiente ou insuficiente. Podemos nos decepcionar, surpreender, encantar, questionar...Cada gesto gera um resultado e cada um revela um modo de ser. Quanta riqueza de detalhes, quanta subjetividade e informação gravadas numa folha de papel com uma técnica tão simples.
Enfim, adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo! Gratidão Oscar Wilde, por inspirar-me nessas reflexões sobre a monotipia, a vida e a arte e, constatar que a simplicidade da vida e da arte pode nos conduzir à descoberta de nós mesmos, e ao mesmo tempo abrigar nossa complexidade e multiplicidade.
                                                                                                                                  
 * Oscar Wilde (1854-1900) foi um influente escritor, poeta e dramaturgo britânico.
Referencias Bibliográficas:
ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
ARIEIRA, Gloria. O yoga que conduz à plenitude. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.
EDINGER, Edward. Anatomia da Psique: o simbolismo alquímico na psicoterapia. São Paulo: Cultrix, 2006.
OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Editora Campus Ltda., 1984.
Shrimpton, R. H. Monotipia: Uma investigação Técnica e Artística. Algarve, 2012. Dissertação (Mestrado em Comunicação, Cultura e Artes) - Universidade do Algarve,129 págs. Disponível em:https://sapientia.ualg.pt/bitstream/10400.1/3522/1/Monotipia170513.pdf
VON FRANZ, Marie-Louise. Alquimia- Introdução ao simbolismo e à psicologia. São Paulo: Cultrix, 1980.
Weiss, L. (2003). Monotipias, algumas considerações.  Cadernos de [gravura], Campinas nº 2, p. 19-27,Nov.2003. Disponível em: https://www.iar.unicamp.br/cpgravura/cadernosdegravura/downloads/p2_GRAVURA_2_nov_2003.pdf                                                          
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Sobre a autora: Liane Esteves


Arteterapeuta e Arte-educadora, especialista em História da Arte e pós graduanda em Psicologia Junguiana.
Faz  atendimentos individuais e facilita oficinas e vivências em Arteterapia.
Leciona Artes Visuais na rede pública de ensino do Rio de Janeiro.
Tem interesse em Arte, Psicologia, Yoga, Vedanta, Espiritualidade, Sustentabilidade, Cinema, Dança e Paisagismo.
Acredita na Harmonia, Amor e Respeito entre os Seres.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

A COLAGEM NA PRÁTICA DA ARTETERAPIA: PROPRIEDADES E APLICABILIDADES



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com

Quando falamos em colagem, inicialmente podemos nos deparar com uma série de preconceitos, como por exemplo colocando-a como uma técnica infantilizada. Entretanto, ao estudarmos sobre a inserção da colagem na História da Arte, que se deu no início do século XX, no advento da Arte Moderna com raízes no Cubismo,  constatamos a profundidade dos simbolismos contidos nesta linguagem da arte inserida em seu contexto histórico e sociocultural. A contextualização da colagem na História da Arte faz com que o arteterapeuta se conscientize da profunda herança simbólica que ela carrega a cada oportunidade de oferece-la ao seu paciente/cliente. Neste texto não me aprofundarei neste tema, mas deixo aqui a sugestão de pesquisa e estudo. 

Outra percepção equivocada sobre a colagem se dá quando é vista como uma técnica simplória, propícia para uma fase  inicial ou primária da experiência da Arteterapia. Esta percepção se torna falaciosa, quando compreendemos que o fato da colagem ter como benefício a não complexidade durante o ato criativo, não minimiza o grande potencial que está contido em seu processo, podendo ser acessada em qualquer etapa do percurso terapêutico e explorada em diversas complexidades a medida da riqueza de materiais possíveis de serem utilizados. 

O processo da colagem se dá em dois tempos, riquíssimos em simbolismos, que remontam dinâmicas tão presentes na vida cotidiana: o primeiro se refere à desconstrução, fragmentação, um caminho para a abstração; o segundo, a colagem propriamente dita, se refere à (re)construção e (re)composição como um caminho possível diante dos fragmentos  físicos e/ou subjetivos. Colocar o paciente/cliente de Arteterapia na experiência do primeiro tempo fica a critério do arteterapeuta, tendo em vista se o sujeito necessita vivenciar o processo de desconstrução. Mas se ele já se encontra “fragmentado”, somente há sentido na vivência do segundo tempo.

A partir da prática e observação clínica, alguns aspectos sobre a colagem são importantes serem destacados:   

a)    As propriedades

A colagem é uma técnica estruturante e de controle. No diálogo com a imagem, coloca o sujeito em relação prioritariamente com a forma, em detrimento da cor. 

Todas as técnicas da Arteterapia estimulam as quatro funções psíquicas descritas por Jung, mas naturalmente em cada uma delas, uma função específica se torna protagonista. Na experiência da colagem, a função principal convidada é a Função Pensamento.

No primeiro tempo é trabalhada a desconstrução, fragmentação, quebra do estabelecido, o abrir mão: experiências que não raras vezes a vida impõe de forma avassaladora na biografia de um sujeito. Entretanto no segundo tempo, é proporcionada a experiência do controle: as linhas/traços são feitos com a tesoura; o processo envolve escolher, delinear, compor; a composição estimula a organização de múltiplos elementos, associações entre as partes, integração do fragmentado; a imagem se estrutura através dos contornos, limites, localização, circunscrição, tamanho definido.

b) O processo: verbos; ações e movimentos externos/internos

Colocar o sujeito na experiência com o material significa coloca-lo para agir sobre suas questões. Desta forma é interessante ao arteterapeuta atenta-se para os “verbos” ou as ações que cada material proporcionará externa e internamente em seu paciente/cliente.

No processo da colagem, no primeiro tempo, podemos destacar verbos como quebrar, fragmentar, cortar, desconstruir, destruir, decompor.

No segundo tempo, escolher, selecionar, priorizar, ordenar, planejar, organizar, reunir, integrar. Encontrar um “novo possível” (as vezes “não-belo”, não harmonioso, não equilibrado). (Re)compor, ressignificar, reinventar(-se).

c) Os potenciais

c.1) Perfis de pacientes/queixas, palavras chave:

O primeiro tempo é interessante ser proporcionado a sujeitos com enrijecimento de pensamentos, sentimentos, perspectivas, desejos ou construções e que a vida apresenta a necessidade de descontruir-se para reconstruir-se, ou seja a necessidade de  flexibilidade, lidar com o não controle sobre a vida.

O segundo tempo deve ser proposto para aqueles em que já houve a desconstrução, como cenários de perdas e/ou traumas (ego fragmentado). Para pacientes/clientes que apresentam desorganização, falta de equilíbrio, de contornos e limites, excessos, misturas, espalhamentos, transbordamentos de conteúdos, pensamentos, sentimentos.

Vale ressaltar que, ao contrário das ideias simplórias sobre a colagem, estas descrições se encaixam em qualquer momento de uma vida e consequentemente em qualquer estágio de um processo terapêutico.

c.2) Pouca resistência

Uma das grandes qualidades da colagem como técnica arteterapêutica se dá por não demandar grande histórico ou intimidade com o fazer artístico: os elementos já estão prontos, devem “apenas” serem selecionados e compostos. Sendo assim, ela é uma técnica propícia para os primeiros contatos com as técnicas expressivas, excelente porta de entrada para outras linguagens além da verbal, para o mundo das imagens e para o ato de criar, nas modalidades individual ou grupal.

Inicialmente trabalhos com figuras de revista se mostram as propostas mais indicadas, pois as imagens com tanto potencial projetivo estão postas para serem manejadas a partir da subjetividade de cada um. Mas a medida do aprofundamento da intimidade com o criar, abre-se ao arteterapeuta um campo para a ampliação dos materiais, como papéis de variadas cores, estampas e texturas além de tecidos e aviamentos. É possível ampliar ainda mais para utilização de qualquer material “estranho”, à inspiração de Picasso, considerado: 
“o descobridor da colagem, a qual pode ser descrita como a incorporação de qualquer material estranho à superfície do quadro... fragmentos de jornais, maços de cigarro, papéis de parede e tecidos estão relacionados com a nossa vida cotidiana; identificamo-los sem esforço e... formam parte de nossa experiência no mundo material que nos cerca...” (Golding in Stangos) 

Nesta perspectiva, cabe ao arteterapeuta fugir do senso comum e enriquecer ao máximo as possibilidades de materiais para colagens em seu atelier. É possível também estimular que o próprio paciente/cliente invista (de si) em coletar seu próprio material. Como referência na História da Arte, temos as assemblagens de Kurt Schwitters e sua Merz Art, vistas como uma espécie de coluna, quase um totem, feita de coisas encontradas ao acaso e acrescidas às outras, dia após dia. Uma composição de tudo o que por acaso caiu sob suas vistas ou esteve ao alcance da mão, chamou sua atenção por um instante, ocupou sua vida por algum momento - passagens usadas de bonde, pedaços de cartas, barbantes, rolhas, botões, etc. Com o objetivo de "criar relacionamentos entre as coisas do mundo", os elementos recolhidos e combinados que haviam sido descartados pela sociedade por não servirem mais, por terem cumprido suas funções (algumas pessoas podem se identificar com esta descrição), mas por serem "vividas", comporão o quadro, arte.
c.3) Repetição Criativa

“Repetir, repetir – até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo.”  Manoel de Barros 

O tempo de elaboração da clínica individual é singular e caminha ao ritmo do sujeito. Sendo assim, na prática, não há necessidade de trocar de material a cada sessão, pelo contrário manter-se em diálogo com um material e uma técnica (demorar-se, algo que tem se perdido em nossa contemporaneidade), proporciona o aprofundamento das reflexões e dos movimentos externos/internos. 

A colagem em sua diversidade de possibilidades em propostas e materiais, é uma excelente técnica que proporciona por tempo estendido a oportunidade da repetição para a elaboração: não a repetição obsessiva, mas a “repetição criativa” que possibilita retificações ao longo do processo de autoconhecimento.

c.4) Estimulação cognitiva idosos/seres humanos

Um dos benefícios da Arteterapia no trabalho com idosos se dá porque de forma criativa, lúdica, leve e convidativa os pacientes/clientes estimulam as mais variadas funções cognitivas como atenção, concentração, memória, linguagem, funções executivas, praxia, abstração. A estimulação cognitiva é um imperativo da gerontologia e no processo da colagem isto se dá de forma especial, acionando diversas funções cognitivas para a resolução da composição da imagem. 

Porém, independente da faixa etária, a colagem é encaminhada para qualquer contexto em que o arteterapeuta intente estimular a busca de soluções, o reconhecimento dos recursos, a criação de estratégias e suas execuções, além de trabalhar a proatividade, pensar fora da caixa, principalmente quando explorada a pluralidade de materiais.

d) Materiais de apoio

A medida da ampliação dos materiais utilizados na colagem, inclusive caminhando para a assemblagem, o arteterapeuta deve atentar-se para dispor em seu atelier de materiais de apoio que deem sustentação para o processo criativo e o encontro de soluções por parte do sujeito. É essencial  disponibilizar bases resistentes como papelão, papel paraná, cartão kraft grosso (de cor parda), papel duplex ou triplex (de cor branca), madeira, tela... Deve dispor também de materiais para colar diferentes elementos como cola cascorez, cola quente, fita crepe, grampeador, arame, gominha, tachinha, tachinhas tipo bailarina, prego...

Vale ressaltar que a pluralidade de materiais envolvidos na colagem, em geral, envolve materiais de baixo custo ou até mesmo reaproveitamento de materiais. Este é um dado que vai ao encontro da realidade prática de arteterapeutas que possuem poucos recursos de investimentos para materiais, como por exemplo em trabalhos institucionais em que a direção não oferece recursos para manutenção do material. 

e) Herança Simbólica

“Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível se reinventada.” Cecilia Meireles em Reinvenção

Na contramão de ideias preconcebidas que colocam a colagem como uma técnica simplória, o aprofundamento do estudo sobre sua história e sobre o potencial mobilizador de seu processo empodera o arteterapeuta para seu manejo no setting arteterapêutico. É importante que ele esteja seguro que o ato criativo da colagem possui uma profunda herança simbólica que remonta nos materiais movimentos de vida que demandam o (re)criar, o (re)construir e o (re)inventar, encaminhando o sujeito para uma “resiliência criativa”, as vezes imperativa para o atravessamento de uma biografia

Conclusão:

“Fracionar e rejuntar, como faz a colagem, não repõe a unidade quebrada. Ela não pasteuriza nem pacifica. Não tem vocação democrática se isto for entendido como união de todas as diferenças. Há diferenças que não cabem em determinadas formas mas cabem em outras.” Marx Ernst (Golding in Stangos)

Diante dos conteúdos citados, aos quais ainda se encontram em aberto, concluímos que a colagem se mostra  uma técnica com riquíssimas possibilidades e imenso potencial na prática da Arteterapia, cabendo ao arteterapeuta se aprofundar em seu estudo histórico e prático, além de investir em explorar sem reservas suas tantas variações em possíveis propostas, aplicáveis em todo e qualquer estágio do processo arteterapêutico.  

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.


A Equipe Não Palavra te aguarda!

Referências Bibliográficas:

PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades 
STANGOS, Nikos (org). Conceitos da Arte Moderna

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Sobre a autora: Eliana Moraes



Arteterapeuta e Psicóloga. 

Especialista em Gerontologia e saúde do idoso e cursando MBA em História da Arte. 
Fundadora e coordenadora do "Não Palavra Arteterapia".
Escreve e ministra cursos, palestras e supervisões sobre as teorias e práticas da Arteterapia. 
Atendimentos clínicos individuais e grupais em Arteterapia.
Nascida em Minas Gerais, coordena o Espaço Não Palavra no Rio de Janeiro.