segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

TRADUZIR-SE UMA PARTE NA OUTRA PARTE... SERÁ ARTE!!!: Um ensaio para 2018




Por Eliana Moraes (BH) RJ
naopalavra@gmail.com

“Sobre o mesmo chão está o muro
e o lado de lá, que você esqueceu.
Meu chão é o mundo,
tem dois lados em guerra.
Meu mundo é este chão
onde você cresceu e eu também.
Ao redor de muitos,
me apontaram as cercas e os muros,
Eu quis o caminho...”
Marcos Almeida em “Sobre o mesmo chão”

Caminhamos para o fim de 2017 e olhando para trás começamos a refletir sobre aquilo que se passou e aquilo que está por vir. Já há algum tempo venho aguçando minha escuta a partir da clínica da Arteterapia e psicoterapia sobre as demandas terapêuticas trazidas pelos indivíduos que se mostram como reflexos do cenário coletivo. Penso que faz parte das articulações e estudos de qualquer terapeuta o movimento do social para a compreensão do sujeito angustiado, inserido na cultura. Mas neste ano, dei passos em meu estudo sobre o papel da arte e do artista (ao qual tenho inserido o arteterapeuta como função no social da atualidade) e pude me aprofundar na percepção da importância deste que Kandinsky até mesmo chama de profeta:
“Então sempre surge um homem, um de nós, em tudo nosso semelhante, mas que possui uma força de ‘visão’ misteriosamente infundida nele. Ele vê o que será e o faz ver. Por vezes desejaria libertar-se desse dom sublime, dessa pesada cruz sob a qual verga. Mas não pode. Apesar das zombarias e do ódio, atrela-se à pesada carroça da humanidade, a fim de soltá-la das pedras que a retêm e, com todas as suas forças, impele-a para a frente...
Aquele que, entre eles, é capaz de olhar além dos limites da parte a que pertence é um profeta para os que o cercam. Ele ajuda a fazer avançar a carroça recalcitrante... Essa multidão tem fome – muitas vezes sem que ela própria esteja consciente disso – o pão espiritual quem convém às suas necessidades.” KANDINSKY 
Sem dúvida uma das questões que mais apareceram em minha clínica, individual e grupal ao longo de 2017, foi sobre relacionamentos, especialmente os atritos que em última análise tiveram como disparador inicial a intolerância ao outro, ao diferente. Assuntos não faltam, dentre eles, religião e política. Esta última me preocupa de forma especial pois uma sensação muito estranha me toma quando penso que no próximo ano teremos eleições federais e estaduais e a partir da minha sensibilidade advinda da arte, visualizo um campo de guerra generalizado em nossa terra. 
Um fenômeno de massa ao qual faz crescer as cercas e os muros, dois lados em guerra, uns pela direita e outros pela esquerda, e todos se esquecem que estamos no mesmo chão. Os conflitos invariavelmente partem de um discurso polarizado: o ser humano com seu “eterno dom” de se bipartir e oscilar entre os polos opostos. 
Atendendo a convocação para o artista que “apesar das zombarias e do ódio, atrela-se à pesada carroça da humanidade, a fim de soltá-las das pedras que as retêm e com todas as suas forças, impele-a para frente...”, tenho me inspirado nas cores para colocar pessoas diante de suas polaridades, para que no diálogo com/entre elas percebam que “as partes” habitam em cada um de nós e justamente a não integração delas é que promove o fenômeno da projeção daquilo que não aceito em mim no outro. Assim dispersa-se de prioridades como relação e afeto e instala-se o clima do ódio. 
“Traduzir-se”: vivências em Arteterapia 
Naturalmente o primeiro polo em cores que visualizamos é o preto e branco. Binômio carregado de conceitos (e também preconceitos) culturais, que podem encarnar significados como bom e mal, certo e errado, luz e sombra e tudo o mais que cada subjetividade pode projetar. Mas muitas vezes nos dispersamos de quantas possibilidades existem entre o preto e o branco. As diversas tonalidades de cinzas que nos colocam em contato com aquilo que a arte nos presenteia: o degradê.
Mandala para integração das diversas possibilidades em tons entre o preto e o branco

Mas antes que nossos preconceitos nos afastem do cinza, trago a canção/poesia de Mateus Aleluia, que me orienta à ressignificação desta cor tão generosa: 
“Na linha do horizonte tem um fundo cinza
Pra lá dessa linha eu me lanço, e vou
Não aceito quando dizem que o fim é cinza
Se eu vejo cinza como um início em cor

Quando tudo finda, dizem, virou cinza
Equívoco pois cinza cura, poesia eu sou

O traje cinza lembra fidalguia
Quarta-feira cinza é dia de louvor

Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor
Gota de orvalho prateada é cinza
Massa encefálica é cinza, amor

A purificação também se faz com cinza
Fênix renasceu das cinzas com honor

Só quero dêngo quando o dia é cinza
Ler poesia e cantar ao sol

Dedilho a viola e sonho colorido
E vejo no amante que o cinza desnudou

Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor” Amor Cinza


Outra possibilidade de experienciar as polaridades através das cores se dá quanto exploramos o círculo cromático. Pela teoria das cores, há aquelas que são opostas no círculo cromático apresentando os binômios: vermelho/verde, amarelo/roxo, laranja/azul. Experimentar estas polaridades através de colagens ou pinturas nos colocam em diálogo com alguns dos paradoxos que nos habitam como seres humanos e a própria teoria das cores nos acende uma luz quando nos diz que estas cores são “opostas e complementares”.  

O “traduzir-se” aos arteterapeutas

Diálogo com as cores opostas complementares: amarelo e roxo

Tenho oferecido a experiência com as “cores opostas complementares” em diversos contextos da minha prática. Porém, em especial, tenho proposto este mergulho especificamente aos arteterapeutas da minha rede de influência por acreditar com toda minha energia que só poderão oferecer ao social a integração das polaridades através da Arteterapia, aqueles que estiverem em profundo contato com suas próprias metades, antagonismos, contradições... Como disparador de grandes insights, podemos nos inspirar na poesia “Traduzir-se” de Ferreira Gullar, que retrata a condição das partes que o habitavam e aponta para a arte como um caminho possível:
Diálogo com as cores opostas complementares: laranja e azul

“Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?”

Para 2018 está posta a arena para o embate entre as polaridades. Polos opostos projetados no outro, mas que efetivamente habitam na humanidade de cada um. Reconhecer as partes que dialogam/digladiam no interior de cada sujeito é o grande desafio lançado. Em 2018 responderemos a pergunta de Ferreira Gullar, traduzir uma parte na outra parte será uma arte! Que nós arteterapeutas estejamos prontos e a postos para oferecermos ao social os materiais propícios para a integração das polaridades nas esferas individual e coletiva.  
Diálogo com as cores opostas complementares: verde e vermelho



Referência Bibliográfica:

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Bardot, Individuacão e o SoulCollage®


Por Andrea Goulart de Carvalho – BH/MG
goulart17@hotmail.com

“Olha procê ver”!

Olha procê ver! É um jeitinho que, nós mineiros, usamos para começar a contar um caso. Como não fujo às minhas origens...olha procê ver o meu caso: Me entendo por artista desde muito pequena, quando tive uma “obra” reconhecida, pela família, é claro! A dita obra foi um desenho de uma artista de cinema, Brigitte Bardot, copiada de uma revista e desenhada, com giz branco, na lousa do quarto de estudos, onde meus irmãos estudavam e eu brincava. Eu tinha menos 5 anos de idade. Ah! Esta menina é uma artista! Ouvi de meus pais, depois desta e de mais algumas outras “obras”.
O prazer de desenhar e os elogios sobre a minha aptidão me fizeram desejar fazer arte para o resto da vida. Acreditei e decidi, entre gizes e lousas: - Serei uma artista!
O tempo foi passando e eu, a menina desenhista, não sei exatamente porque, como e quando, comecei a colecionar imagens retiradas de revistas. Selecionava e guardava as figuras separadas por temas - bichos, gente, coisas, etc..
Não sabia o que faria com a minha coleção, mas tinha o maior zelo com ela.
Cresci. Estudei artes plásticas, formei em desenho e gravura e a coleção de figuras aumentou. Primeiramente as figuras se prestaram como material de exercício técnico e criativo, para alguns trabalhos pessoais. Num segundo momento, durante muitos anos, foram utilizadas com os alunos do curso de desenho e pintura que ministrei.
Contingências fizeram que as pastas com as imagens ficassem guardadas por um tempo, nunca esquecidas, até que, aquela menina que tinha vontade de desenhar e de ser artista, colecionadora apaixonada por suas imagens, pode reativar a força de sua coleção e esta revelou uma outra função, talvez a verdadeira vocação da coleção, numa atividade de aprendizagem e autoconhecimento, prazer e satisfação, o estudo e a prática do processo do SoulCollage®.
Assim, o nosso mineiríssimo olha procê ver! ficou mais forte e trouxe mais sentido ao tema que me proponho a tratar aqui, a questão do que estava escrito nas estrelas, a sensação de estar no caminho certo e esta coisa da qual ninguém escapa, o Processo de  Individuação.
A Individuação, aqui simplificadíssima, é a forma que conseguimos distinguir uma coisa das outras coisas. É o desenvolvimento do processo onde a personalidade, em conjunto com as nossas experiências, tem a possibilidade de numa integração onde tudo, ou boa parte do tudo, funcione de maneira a permitir que a pessoa possa se situar e viver em sua comunidade, exercendo suas atividades da forma mais completa possível.
Quem disser que viver e individuar é fácil estará enganado ou não vive nesta terra! Pode ser que viva nas estrelas! Isto, na minha visão, é muito positivo.
O processo de individuação começa no nascimento ou antes, vai se desenvolvendo, sutilmente, à medida que aprendemos coisas sobre as coisas, sobre a vida e as pessoas, os acontecimentos do mundo, bem devagarinho, pelo caminho do amor. Outro jeito de individuar é quando chega um dia, aquele momento da vida, que a necessidade do processo de individuação fica realçada por alguma mazela. Aí o caminho é pela dor.
De uma forma ou de outra, vamos querendo e precisando entender o que somos, a que viemos e para onde iremos. Não tem idade certa, sexo, crença, cor. Todos viveremos a individuação.
Na infância pensamos ou não pensamos em nada do tipo, é hora de aprendizados, de formar valores. Na adolescência tudo parece tão simples, é a hora do desencana. Tudo está tão distante. Envelhecer (individuar) é para velhos.
Já adultos a coisa começa a modificar. Responsabilidades, desafios e resoluções dão os tons e formatos para continuarmos nossas vidas.

Qual será nosso futuro?

Estes questionamentos mexem lá no fundo da alma da gente. Chegamos neste mundo com muitas possibilidades, inatas e prontinhas para serem vividas. A natureza é perfeita e harmônica! Animais, plantas, os elementos, cada um com as suas funções, que cumprem perfeitamente!
Mas, nós os humanos, temos uma coisa a mais no nosso pacote, o dom da complicação! A negação ou falta de visão destas possibilidades são parte deste dom da complicação e nos faz sofrer e adiar a individuação, o atingimento da totalidade de nossa existência, da nossa consciência. Esta é uma das causas dos sofrimento e das patologias físicas e psíquicas.
Existem muitas formas de individuar. Varias correntes, segmentos na filosofia e da psicologia.
Uma  das formas para a individuação é a assimilação do seu tipo psicológico e a suas quatro funções - sensação, pensamento, intuição e sentimento, conceitos da psicologia analítica, que nos ajudam a compreender e aceitar a nós mesmos e aos outros. A maioria de nós não teremos este aprofundamento na teoria Junguiana, mas poderemos permitir, de tantos outros modos que nossos dons se manifestem e que deles possam surgir e surtir efeitos de aceitação e compreensão sobre nós mesmo e de auto realização, que nos leverão ao nosso destino, a Opus Magna dos alquimistas.

E esta tal de Opus Magna? Como faço isto?
Eu sou suspeita para indicar porque a minha paixão é o SoulCollage®. Com certeza será lindo, prazeroso, muito profundo, facilitador e revelador.


E, como no SoulCollage®, se perguntar e fizer a carta, lá do fundo a alma vem a resposta - E esta tal de Opus Magna? Como faço isto?

Entenda, aceite, receba e agradeça Bardot! Aceite, renove reacenda seu amor por você, pelo seu dom e acredite no que está escrito nas estrelas! Seu caminho está no seu traçado e te levará à sua rosa de ouro.



Meu amor estava escrito nas estrelas. Tava sim

Tetê Espindola/1985


Você pra mim foi o sol
De uma noite sem fim
Que acendeu o que sou
E renasceu tudo em mim

Agora eu sei muito bem
Que eu nasci só pra ser
Sua parceira, seu bem
E só morrer de prazer

Caso do acaso
Bem marcado em cartas de tarôt
Meu amor, esse amor
De cartas claras sobre a mesa
É assim
Signo do destino
Que surpresa ele nos preparou
Meu amor, nosso amor
Estava escrito nas estrelas
Tava, sim

Você me deu atenção
E tomou conta de mim
Por isso minha intenção
É prosseguir sempre assim
Pois sem você, meu tesão
Não sei o que eu vou ser
Agora preste atenção
Quero casar com você

Retomando o mineirismo, regado pelo olha procê ver! e acreditando totalmente nos processos de individuação e do SoulCollage®, retomo resumindo o meu caso: Eu menina, desenho uma figura na lousa e desperto um dom que veio no meu pacote. Começo a guardar figuras de revistas, sei lá para o que e, alguns (alguuuuns) anos depois estas figuras me levam ao mundo do inconsciente através do processo do SoulCollage® e me trazem aqui, neste blog, para falar de individuação, da questão do que estava escrito nas estrelas e a sensação de estar no caminho certo, nesta coisa da qual ninguém escapa, o Processo de  Individuação.

Olha procê ver! Tava escrito nas estrelas ou não tava? Tava sim!!!
Vamos falar desta coisa do caminho certo, de sincronicidades? 
No próximo texto daqui, com a Graça de Deus, se Ele quiser!

Referências Bibliográficas:

JUNG, C. G. 1991. Sincronicidade. Petrópolis, Vozes, O.C. VIII/3.

JUNG, C. G. 1991. A Natureza da Psique. Petrópolis, Vozes, O.C. VIII/2.

JUNG, C.G. 1986. Resposta a Jó. Petrópolis, Vozes, O.C. XI/4.

SoulCollage®. Disponível em: <www.soulcollage.com>

Tetê Espindola/1985 - Meu amor estava escrito nas estrelas tava sim


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Sobre a autora: Andréa Goulart de Carvalho



Bacharel em Desenho e Gravura pela EBA/UFMG;
Arteterapeuta - AMART 107/0112, afiliada a UBAAT.
Facilitadora de SoulCollage®/2015; Artista Plástica;
Atendimento arteterapêutico individual e em grupos no AME – Arteterapia
Ministrante de curso introdutório de SoulCollage® e aulas de desenho no AREA - Ateliê de Artes



Este é o segundo texto escrito por Andrea. Veja o primeiro CLIQUE AQUI


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

RE-CICLO DA VIDA: Reflexões e prática sobre a arte de reciclar


Por Maria Matina - RJ, atualmente residindo em Portugal
matinarte@gmail.com


A vida, assim como tudo na natureza é composta de ciclos: o nascimento, crescimento, multiplicação e por fim a morte. Assim vai caminhando a humanidade, com os ciclos da vida infinitos e constantes. Porém, o lixo e os resíduos não existem na natureza, são resultado da criação humana e da forma como nos relacionamos com o ambiente. Sendo assim quais alternativas temos para modificar nossa relação e olhar sobre o lixo!?  

No mundo de consumo extremo em que vivemos é necessário um olhar consciente sobre o que consumimos e produzimos enquanto seres vivos no planeta terra, e infelizmente o que mais produzimos é lixo!
Já parou para pensar na origem da palavra lixo!? é um pensamento curioso, mas a verdade é que a origem desta palavra diz muito sobre o que ela representa e de como nos relacionamos com o lixo ao longo dos séculos. A etimologia da palavra é incerta, mas alguns historiadores acreditam que vêm do latim lix, "cinza, lixívia", lixare, “aparar, lixar” ou lixius que significa “água ou objeto sujo”.
Interessante pensar que durante muito tempo nosso lixo se resumia as cinzas provenientes das fogueiras, sobras de madeira lixada e águas contaminadas, porém  se seguimos refletindo sobre o assunto esbarramos em outra palavra - resíduo, também proveniente do latim residuum, residere, “ficar atrás, sobrar” e que somado ao lixo define um grande problema do nosso tempo.
Tudo aquilo que vamos descartando e deixando sobrar interfere no futuro da humanidade e do planeta e cabe a cada um de nós assumir a responsabilidade sobre o lixo que produzimos e ampliar nosso olhar a respeito deste tema.

Na minha infância vivia em uma Ilha onde não havia luz elétrica, água encanada e muito menos coleta de lixo, o lixo produzido era levado ao continente de tempos em tempos. Eu tive a grande sorte de ver desde pequena que a casca das frutas e legumes eram matéria orgânica para as plantas, as garrafas de vidro eram candelabros para as velas e os papéis ou jornais velhos podiam se transformar em papel reciclado. Vindo de uma família de artistas também aprendi desde cedo que  com a arte podemos fazer algo morto ou fora de uso renascer e se transformar em algo novo!
Essa é a essência da reflexão que abordei na palestra vivencial "Re ciclo da VIDA: reflexões e prática sobre a arte de reciclar" no espaço do Não Palavra, nos dias 07 e 10 de julho deste ano. Neste encontro apresentei diversos artistas que se usam do lixo para criar e inquietar, os diferentes usos que podemos dar ao lixo e em paralelo algumas atividades artísticas que proponho para cada fase da vida.  


Partindo da base de formação da sociedade: as escolas e famílias, penso em recursos que possibilitem um olhar mais criativo e responsável sobre o lixo produzido cotidianamente.
Bebês- O simbólico está presente no imaginário infantil, a metáfora é constante no universo lúdico em que vivem. Um copo pode virar um chapéu, uma boca, uma sanfona, um sol, um polvo, uma série infinita de possibilidades. Algo que seria menosprezado e iria pro lixo vira ferramenta de criação. É interessante se aproveitar da metáfora e brincar com tudo! Desde a folha de papel até a construção em sucata. (Saiba mais no meu texto anterior CLICANDO AQUI)
Técnica da papietagem
Primeiro monte a estrutura do personagem usando fita crepe e em seguida inicie a papietagem (colando várias camadas de tiras de jornal). Faça a última camada com papel toalha para deixar a superfície branca e com mais aderência.
Crianças-  Sucata e construção são formas excelentes de desenvolver a
criatividade, a cognição e o desenvolvimento motor, além de ajudar a 'dar forma' ao universo lúdico da criança, na maioria das vezes abstrato. Acima de tudo oferece um olhar novo sobre o antigo ‘lixo’. Tal como os bebês também têm a capacidade de transformar tudo com o seu olhar, mas têm a necessidade de dar mais forma (uma imagem mais clara internamente, exige uma imagem mais clara externamente).
Adolescentes- É preciso desafiar o adolescente com demandas mais complexas pois a sucata não basta, ter um olhar diferenciado para as possíveis necessidades, pode ir desde o papel reciclado com elementos naturais até a papietagem com criação de
personagens, máscaras e elementos mais complexos ou funcionais.
Papel Reciclado
Transformar os papéis antigas, notícias de ontem e folhetos de propaganda em algo novo e cheio de poesia. Basta picotar o papel, deixar de molho com água e vinagre (ou água sanitária) bater no liquidificador ou esperar dissolver, misturar com cola, retirar excesso de água, prensar e esperar secar.
Adultos - É necessário recuperar o olhar lúdico sobre as coisas, sair da rotina de consumo para criar, as vezes algo útil e funcional dentro de sua realidade e às vezes algo apenas criativo e libertador.
Útil, Belo e feito por você!
É fabuloso poder transformar algo que cotidianamente é descartado em algo útil e novo! Ás vezes só com pequenos cortes ou uma pintura podemos criar objetos lindos e funcionais.
“Do lixo ao luxo”
Idosos- Fechando o ciclo da vida se encontra o idoso, esse que foi do lúdico ao funcional e agora vive nessa lacuna que a sociedade como um todo não compreende e tampouco sabe como proceder. Eu sugiro no trabalho com idosos uma reaproximação ao lúdico e a evolução ao trabalho ‘funcional’, se libertar através da imaginação e evoluir na dificuldade do trabalho manual, tal como evoluímos na vida.
Cestaria
Ao se trabalhar com idosos ressignificar o fim de algum objeto pode ser por si só um caminho de cura. O jornal que traz notícias passadas se transforma em cesto e jóia através da técnica da cestaria.

Traçando um paralelo com a Arteterapia, te pergunto, caro leitor, quantas vezes conseguimos ressignificar e transformar aquilo que era lixo ou seria descartado?
E encerro por aqui esse texto que na verdade é um convite para reflexão e ação. Sou muito grata a todos que partilharam destes encontros no atelier Não Palavra, e também ao convite de escrever novamente para o blog. Significa para mim um estímulo ainda maior de Repensar meus comportamentos, Recusar aquilo que não é necessário, Reduzir o consumo e os excessos, Reutilizar tudo que for possível e por fim Reciclar.
Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.
A Equipe Não Palavra te aguarda!
Links de referência:
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Sobre a autora: Maria Matina



Artista, educadora e arteterapeuta, nasceu no Rio de Janeiro numa família de artistas. É coordenadora e co-fundadora da Casa Benet Domingo, atualmente divide-se entre a Europa e o Brasil realizando projetos artísticos e culturais e em busca de parcerias institucionais para a Casa.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

MITO E PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO: Uma experiência de processo criativo


Por Mércia Maciel - RJ
mercia.m@terra.com.br

Ao longo do curso de pós-graduação em Arteterapia e Processos Criativos, tenho tido oportunidades muito ricas de reflexão a respeito de temas importantes da Psicologia Analítica de Carl G. Jung, que configura a base teórica desse curso.
Uma dessas oportunidades aconteceu ao longo do processo de trabalho teórico-vivencial proposto pela disciplina de Processos de Criação e suas Linguagens. Por isso, decidi compartilhar essa experiência como forma de demonstrar o poder revelador e de autoconhecimento que os mitos podem trazer, auxiliando nosso processo de individuação.
O mito não pode ser lógico, ao contrário, é ilógico e irracional, na medida em que pretende explicar a complexidade do real, ou seja, o mundo e o homem. Dessa forma, presta-se a todas as interpretações. Assim, decifrá-lo é decifrar a si mesmo.

No conceito de Carl Jung, o mito seria a conscientização dos arquétipos do Inconsciente Coletivo, um elo entre este e o Consciente, compreendendo aqui o Inconsciente Coletivo como a herança das vivências das gerações anteriores.
A atividade proposta envolvia a pesquisa sobre mitos em que, a partir da observação de imagens de diferentes mitos, se escolhesse aquela que mais capturasse o olhar.
Meu olhar foi imediatamente seduzido pelas cores flamejantes da Fênix, mito de origem possivelmente egípcia, que se manifestou em muitas culturas e épocas diferentes. De uma forma geral, aparece relacionada ao processo de morte e ressurreição, à dubiedade de todas as coisas no universo, luz e sombra, vida e morte, Yin e Yang, sendo por isso considerado por Jung um dos mitos mais poderosos. A Fênix está relacionada também ao poder da resiliência e ao caminho da individuação.
Esse processo de trabalho vivencial envolveu também a realização de desenhos a partir da imagem escolhida do mito, em que fizemos um visor de papel com uma abertura de 3 cm para selecionar um detalhe daquela imagem e a partir dele ampliar realizando um novo desenho. Esse processo foi repetido com esse primeiro desenho e repetido mais duas vezes, totalizando três desenhos. Ao término dessa produção, não pude deixar de perceber, não apenas na imagem inicial da Fênix mas também em todos os meus desenhos, a imagem ou as cores do fogo representadas.

Imagem Original


Primeiro Desenho


Segundo desenho

Terceiro desenho


Para Jung, o fogo está associado à função psíquica da intuição. Essa função é orientada para o futuro, é o “faro”, o palpite, o pressentimento, sendo portanto uma função de percepção. Esta se baseia em processos inconscientes e subliminares, sendo considerada “irracional”.
Em um primeiro momento me pareceu curiosa a minha escolha pela imagem da Fênix, pois até então a via como uma figura muito comumente associada à vida de muitas pessoas para simbolizar as experiências difíceis da vida, que todos nós passamos e, eventualmente superamos. Algo um pouco estereotipado, “lugar comum”.
Porém, à medida em que fui realizando os desenhos e me envolvendo na pesquisa, ao ponto de ter tido nesse período vários sonhos muito significativos e até arquetípicos, foi ficando clara para mim toda relevância e significado da simbologia desse mito para todo o decorrer da minha vida, que passou por algumas transformações de  “morte” e “ressurreição”.
Representou para mim também uma atualização de referência, uma vez que, em meu passado, na primeira metade da vida, o mito de maior identificação para mim era o de Atena, a deusa grega que nasce da cabeça do pai, Zeus. Todo esse processo, porém, me fez perceber que essa a referência estava ligada a um período da primeira metade da vida em que a função pensamento, à qual está relacionada o mito de Atena, cumpriu uma necessidade de funcionamento dentro do sistema familiar de origem e em outros subsistemas relacionais.
Jung considera que a segunda metade da vida (que não se limita necessariamente apenas à idade cronológica, dependendo mais do processo de desenvolvimento individual) apresenta a possibilidade de realização do si mesmo, de ser quem se é, a partir de um movimento interior que busca integrar na personalidade total conteúdos que, devido à unilateralidade de um ego jovem, permaneciam inconscientes. Esse processo, também chamado de metanóia, não acontece porém sem uma experiência de dor relacionada à morte de uma parte significativa de nós mesmos, que deve se transformar para renascer de modo muito mais pleno, integrando um novo modo de se relacionar consigo mesmo e com o mundo, a partir do eixo ego-self. No meu caso, esse processo foi marcado mais significativamente pela vivência de uma perda traumática em minha vida, que exigiu a construção de uma nova forma de ser no mundo.
Esse exercício de reflexão proporcionado pela atividade proposta, me levou a realizar em minha mente que, a partir daquele momento de metanóia vivido por mim, os meus caminhos têm me levado para a aceitação e reconhecimento de minha função principal, que desde sempre entendo como sendo a intuição, auxiliada de perto pela função pensamento.
Esse processo de criação vivido ao longo de vários dias tornou claro para mim o sentido dessa identificação com o mito da Fênix, ave de fogo que se lança em sua própria fogueira para, a partir de suas cinzas, renascer forte e revigorada, como nova criatura.
Apesar de não totalmente desvelado à consciência até então, percebo que a o mito da Fênix traduz a necessidade de um exercício constante de resiliência que a vida tem me apresentado e que, de uma forma geral, nos desafia a todos. Além disso, e com igual importância, como imagem relacionada ao fogo da função intuição, está e sempre esteve me acompanhando ao longo da vida enquanto uma energia arquetípica fundante e transformadora, revelando uma parte importante da minha história e natureza de alma.
Como parte de meu processo de individuação, considero que essa aventura interior representou mais um avanço em direção ao encontro de minha verdadeira identidade e realização da personalidade.
 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.
A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referências: 
BRANDÃO, J. S. Mito, Rito e Religião. 2017. Disponível em: http://templodeapolo.net/wp/2017/04/23/mito-rito-e-religiao/ . Acesso em: 07 nov. 2017.

CORPO e ARTE: A SEGUNDA METADE DA VIDA. 2014. Disponível em: http://www.portaldoenvelhecimento.com/cursos/item/2395-corpo-e-arte-a-segunda-metade-da-vida-segundo-carl-gustav-jung . Acesso em: 14 nov.2017
FLETCHER, Luiza - O mito da Fênix e sua relação com o poder da resiliência. 2017. Disponível em: https://osegredo.com.br/2017/09/o-mito-da-fenix-e-sua-relacao-com-o-poder-da-resiliencia/ .  Acesso em: 07 nov. 2017.
GUIDON, Angela.  Monografia: Uma Ampliação Simbólica sobre Morte e Renascimento. 2010. Orientador Gustavos Barcellos. Disponível em: http://www.ajb.org.br/monografias.php?monografia=24  Acesso em: 08 nov. 2017.
MOURÃO,Hellen R. A intuição. 2013. Disponível em: http://cafecomjung.blogspot.com.br/2013/07/a-intuicao.html  Acesso em: 14 nov. 2017
O MITO DA FÊNIX: O MARAVILHOSO PODER DA RESILIÊNCIA. 2017. Disponível em: https://amenteemaravilhosa.com.br/mito-fenix-poder-resiliencia.. Acesso em: 11 out. 2017.
ONAISSI, Ali.  A ave Fênix : mito e simbologia. 2017. Disponível em: http://www.gnosisonline.org/textos-especiais/a-ave-fenix-mito-e-simbologia/ Acesso em : 30 out. 2017.

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Sobre a autora: Mércia Maciel


Assistente Social pela UFF (1994), pós-graduanda em Arteterapia e Processos de Criação pela UVA.
Experiência como assistente social: atendimento de família, dependência química, e crianças em situação de abuso.