segunda-feira, 16 de outubro de 2017

"QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA" - MÚSICA E LONGEVIDADE


Por Cristiane de Oliveira - RJ 
crisarteterapia@hotmail.com


"Ah! Se o mundo inteiro me pudesse  ouvir
Tenho muito pra contar
Dizer que aprendi
E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer
Enquanto o outro ri
Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver
Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar”
Tim Maia

Quem canta seus males espanta”, diz o ditado. O que esse ditado representa tem fundamento, a música tem grande poder nos aspectos sociais, biológicos e emocionais do indivíduo. A música permeia a vida dos seres humanos desde sempre. Já no ventre da mãe, o bebê é capaz de ouvir e sentir a música, por isso é indicado que a mãe ouça canções e cante para seu bebê, gerando neles vários estímulos. Esses estímulos musicais vão se agregando ao longo da vida. A neurociência afirma que a parte do cérebro que não é afetada pelas demências como Alzheimer é a que armazena música. Por incrível que pareça, a memória musical não é afetada e, quando acessada, é possível “trazer a tona” sensações, sentimentos, lembranças que refletem no corpo. Assistindo ao documentário “Alive Inside”, foi possível ver as reações diversas de idosos em vários estágios do Alzheimer.  Até o mais afetado reage com espasmos musculares em resposta à música ouvida.

Eu já era sabedora do poder da música, dos ótimos efeitos no cérebro, no físico e na alma, entendia que quem aprende um instrumento tem o desenvolvimento do cérebro diferente. Sabia que ouvir música faz o cérebro “acender várias luzes” (podendo ser observado em ressonância magnética) e, dessa maneira, tocar um instrumento faz o cérebro parecer uma noite de fim de ano, com fogos de artifício estourando por toda parte.  Ver então essa reação nos idosos do documentário só fomentou ainda mais o desejo de trabalhar com música na minha prática em Arteterapia.


Além disso tudo,  a música tem caráter lúdico,  permitindo a interação com o outro, promovendo descontração e auto-expressão. Sendo também uma ótima ferramenta para retomar movimentos corporais e, ao mesmo tempo, fazer um resgate da sua memória. O melhor, então, foi experimentar tudo isso na prática.  Dessa forma, escutar músicas, cantar, criar instrumentos de sucata e tocá-los, jogos musicais e criar produções plásticas baseadas em música são algumas das atividades nas sessões arteterapêuticas. Nessas sessões, então, pude vivenciar a ação da música sobre os longevos. Primeiro é o canto, ao ouvirem as músicas de sua época,  todos, inclusive os mais desconectados, recordam a melodia e cantam. Observa-se nesses integrantes um certo despertar e maior  interação com o grupo.  Cantam no seu ritmo,  no seu tempo, mas cantam. Os demais vão relembrando e solicitando outras canções, querem dançar, relembram histórias. Percebe-se também a formação de vínculo entre os integrantes e a arteterapeuta; a disponibilidade para ouvir o outro; uma boa integração do grupo; o resgate de lembranças, trazendo uma auto-valorização, interesse e prazer em participar das atividades propostas.  


Desse modo, a música permite ao longevo reordenar-se no tempo, não só recordando o passado, mas percebendo-se no presente sendo possível reafirmar o valor de suas próprias vivências. A música na Arteterapia propicia a expressão de emoções, o desenvolvimento  da  criatividade, ajudando a ampliar  as  perspectivas  de vida e o bem estar através do fortalecimento das  interconexões cerebrais. Portanto, vamos abrir espaço e permitir que os longevos soltem a voz e a alma.


“Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando
Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando
Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo aquilo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo
Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção
E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar
Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar”
Gonzaguinha


Referências: 



DOCUMENTÁRIO "ALIVE INSIDE"
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Sobre a autora: Cristiane de Oliveira


Formada em Pedagogia(UFF), Psicopedagogia (UNESA), Arteterapia (POMAR), cursando Pós Graduação em Arteterapia (POMAR)

Atuação em Arteterapia com adultos e idosos (individual e grupo), atendimento  em domicílio e instituições.

Este é o segundo texto escrito por Cristiane para o blog Não Palavra. Veja o primeiro AQUI

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A MÚSICA NA CLÍNICA DA ARTETERAPIA



Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com

Tenho pensado sobre a utilização de expressões artísticas como estímulos projetivos para a clínica da Arteterapia. Já escrevi sobre alguns pintores que me atravessaram como René Magritte, Piet Mondrian, Abraham Palatnik e Edward Hopper. Embora as artes visuais tenham me instigado de forma singular nos últimos tempos, estas não são as únicas expressões artísticas aos quais o arteterapeuta tem como instrumento clínico. Afinal, as técnicas projetivas são aquelas às quais o cliente/paciente recebe um estímulo direcionado à algum dos cinco sentidos, e a partir dele fala o que percebe, pensa, sente. Naturalmente ali projetará conteúdos próprios e na sensação de falar de um terceiro, falará de si. 

Quando abordamos estímulos projetivos auditivos, automaticamente podemos pensar em música. Existem inúmeros estudos que apontam uma profunda ligação entre a música e emoção (deixo a sugestão para que os arteterapeutas pesquisem sobre este tema para se apropriarem destes embasamentos). Na prática da Arteterapia, a música se mostra bastante mobilizadora de afetos e memórias e nos últimos tempos, a propósito da minha clínica, tenho parado para refletir de forma especial sobre ela. 

O texto de hoje se dá como articulações iniciais deste tema tão abrangente e potente em sua variedade de possibilidades como material para arteterapeutas. 

Música: uma arte da cultura brasileira 

Tenho pensado que talvez a música seja a expressão artística mais cotidiana e democrática de nossa cultura. Ela está presente nos mais variados ambientes frequentados em nosso dia a dia. É muito difícil encontrarmos alguém que não tenha qualquer relação com a música. Sendo assim acredito que esta seja uma linguagem da arte bastante acessível àqueles que chegam para a clínica da Arteterapia, sobretudo aqueles que chamo de “pacientes leigos”, que não têm qualquer histórico com as artes. 


Dentre os artistas, talvez o músico seja o mais próximo, que mais alcança o público na cultura brasileira. Estas reflexões foram aquecidas quando me lembrei de uma exposição que visitei em 2015, chamada “Música canta a República”, no Centro Cultural dos Correios, RJ. A mostra continha fotografias, painéis, cartazes, áudios, vídeos e textos relacionados a 110 canções brasileiras de 1902 a 2002. Com diferentes gêneros musicais - maxixe, marchinhas, caipira, samba, MPB, rock, rap – que faziam referência a 80 temas políticos, como “Vargas no Poder”, “Democracia de Massas”, “Anos Dourados?”, “Ditadura e Resistência”, “Que país é esse” e “Eu só quero ser feliz”.

Porém, ao longo da exposição ficou claro que os temas não se resumiam à política, mas revelavam nossa história e a maneira como os artistas de nossa cultura, a partir de suas sensibilidades, a registravam. Nas palavras do curador da exposição:

"Não é só nos períodos de ditadura que teve música de protesto. Existe uma tradição de crônica musical, não apenas sobre política, mas sobre comportamento, economia, cultura. Desde a época do império e principalmente com o Carnaval, criou-se esse hábito de fazer música sobre os acontecimentos do ano anterior. Então isso nos deu esta permanência e é o que nos distingue do resto do mundo... Não há um fato, evento ou personagem que não esteja registrado na música. Isso é uma coisa muito brasileira que não fica só na trilha do humor, é também sátira, reclamação, protesto."  Vladimir Sachetta *



Meus estudos sobre a arte moderna, artistas e pintores europeus do século XX ganharam outro olhar quando compreendi que invariavelmente os movimentos artísticos e suas obras se tratavam de expressões e busca de caminhos possíveis para fatos marcantes daquele recorte histórico, como as duas grandes guerras. Assim, da mesma forma, podemos compreender a música como uma tradicional linguagem da arte que nos é própria como cultura, para expressão e busca de caminhos possíveis diante de nossa história e contexto sóciocultural. Se fizermos um exercício de memória poderemos citar um grande número de músicas que podemos considerar como registros de nossa história como brasileiros. Deixo aqui o convite para que o leitor deixe nos comentários a(s) música(s) que ache válido ser(em) lembrada(s).  

Cabe aqui também o convite aos amigos do Não Palavra para aguçarem a escuta sobre a música brasileira produzida na atualidade – aqui não importando se artistas consagrados ou artistas de rua. O que a música brasileira de nossos tempos tem nos dito?

A música na clínica da Arteterapia: algumas propriedades

“ - Você conserta meu coração?
- Concerto.
(desde então tudo foi música)”
Zack Magiezi

A música é utilizada para fins terapêuticos desde os tempos ancestrais. Mas penso que se a compreendermos como expressão tradicional de nossa cultura, nós arteterapeutas brasileiros devemos nos aprofundar neste estudo e nos instrumentalizar para oferece-la aos nossos clientes/pacientes e ao social de forma consistente em sua infinidade de possibilidades e diversidade. Esta é uma expressão artística que dificilmente provocará resistência para aos que chegam para clínica da Arteterapia, apresentando-se como uma oportuna porta de entrada para a sensibilização do paciente para o contato com a arte.

As músicas instrumentais são muito estimulantes em várias dimensões. A partir de suas intensidades, potências, acordes maiores ou menores, servem de estímulos psicológicos e sensoriais que provocarão o ouvinte. Podem ser acionadas em casos de esvaziamento ou empobrecimento emocional para o acesso a memórias afetivas, sensações e sentimentos que aquecerão as reflexões terapêuticas. Bastante estimuladora também de variadas funções cognitivas, estimulação interessante não apenas para crianças em desenvolvimento ou idosos para a prevenção/tratamento de declínios cognitivos, mas para seres humanos de forma geral:

“O processamento musical envolve uma ampla gama de áreas cerebrais relacionadas à percepção de alturas, timbres, ritmos, à decodificação métrica, melódico-harmônica, à gestualidade implícita e modulação do sistema de prazer...” MUSZAT

Já as músicas que possuem letra, podem ser exploradas em sua poesia, como recursos para um diálogo consigo mesmo, através de um “interlocutor”: o artista, que também será objeto de projeção do ouvinte. Como arteterapeuta invisto em minha própria discografia, coletando em um pen drive ou no aplicativo spotfy músicas que me atravessam em minha experiência de vida que entendo que em algum momento poderão emergir como temáticas clínicas. Em algum momento posso estimular que o paciente traga uma música que lhe toque, que lhe diga algo, ou que faça parte da trilha sonora de sua vida. Se quisermos acessar uma música de forma espontânea, podemos utilizar o recurso da fantasia dirigida ao qual o paciente irá buscar por si próprio, como mensagem de seu inconsciente, a música a ser investida. 


A experiência de (re)ouvir aquela música dentro do setting arteterapêutico, em um ambiente suportado pela transferência, na companhia do terapeuta, certamente atualizará a relação do sujeito com aquela música e o provocará no caminho de elaboração de seus conteúdos.  

Estas são algumas reflexões iniciais sobre o uso de músicas na prática da Arteterapia. Mas este tema ainda está aquecido nos diálogos com interlocutoras da minha rede, pessoas que me instigam à pensar a Arteterapia. Nos próximos dois textos deste blog, estas parceiras trarão suas percepções e novas contribuições sobre esta linguagem da arte tão nossa. 


Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda! 



* Fonte:

http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2015/08/12/exposicao-a-musica-canta-a-republica-de-franklin-martins-e-inaugurada-no-rio/



Referência Bibliográfica:



MUSZKAT, Mauro. Música, neurociência e desenvolvimento humano.

Disponível em: http://www.amusicanaescola.com.br/pdf/Mauro_Muszkat.pdf

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A ENERGIA DO ENCONTRO: UM RELATO SOBRE A INTERGERACIONALIDADE


Glória Maria dos Santos - RJ
gloriamasantos@gmail.com

“Há muros que só a paciência derruba.
Há pontes que só o carinho constrói.”

Cora Coralina

A oportunidade de trabalhar em uma instituição que abriga um retiro de idosos facilitou uma aproximação entre gerações.
Das visitas sem hora marcada e idas para explorar o espaço, foi surgindo um desejo de estar junto com mais frequência e porque não fazermos atividades que nos aproximassem e gerassem prazer e alegria em estarmos juntos. Até então a participação dos idosos era mais passiva. Íamos cantar, dançar, recitar poesias e após as apresentações brincar e observar os peixes no lago, sob o olhar encantado dos moradores. 
Observamos a alegria e o prazer que eram gerados a partir desses encontros e paralelamente o trabalho com jovens da Ação Social. 
Atividades cognitivas, plásticas, jogos, concertos e palestras foram enriquecendo e promovendo um ambiente de troca, integração e respeito. A disposição com que os idosos passaram a sair dos quartos, arrumando-se para os nossos encontros nos obrigou a qualificar as nossas propostas. Muitas vezes ao sairmos já sabíamos o que fazer /propor na semana seguinte. 



Hoje com os alunos da Pré Escola II (5/6 anos) estamos realizando uma vez por semana, uma manhã ou tarde, num período de 3 horas, encontros que envolvem propostas cognitivas e lúdicas com um grupo de 25 alunos com mais ou menos 12 idosos. Com os adolescentes, os encontros são semanais com 1 hora de duração. Iniciamos o projeto em 2010, com 2 ou 3 alunos. Hoje somos 12 alunos frequentes, trocando ideias, experiências e vivências com um grupo quase fixo de 10 idosos. 
Aprendemos a lidar com o ritmo de cada um, ouvimos canções, falamos de filmes e assuntos da atualidade, dançamos e exploramos através de diferentes linguagens, propostas de ativam a memória, trazem sentimentos, geram saúde e melhor qualidade de vida. 
A mudança no olhar em relação ao idoso, entendendo que o passar do tempo (envelhecimento), não traz somente limitações, mas uma bagagem de experiências que pode ser compartilhada com os mais jovens.

Para saber mais sobre o tema INTERGERACIONALIDADE leia também:

Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com

Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.

A Equipe Não Palavra te aguarda!

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Sobre a autora: Glória Maria dos Santos

Professora, psicopedagoga, terapeuta holística, estudante de Arteterapia e voluntária.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O CONTO DE FADA COMO INSTRUMENTO TERAPÊUTICO


"A redenção das irmãs da cinderela"

Por Janaína de Almeida Sérvulo - MG
janainaservulo@gmail.com


 “Há um significado mais profundo nos contos de fada que me contaram na infância do que na verdade que a vida ensina.” (Schiller, poeta alemão)
“Contar histórias é um jeito de amparar as crianças em suas angústias e ajudá-las a nomear o que não pode ser dito. A ficção acaba sendo uma saída para que certas verdades se imponham.” (CORSO, 2006, p.18)
Os primeiros contos de fada escritos datam do século XVII, na França, são atribuídos a Charles Perrault e estão presentes na coletânea: “Contos da Mamãe Ganso”. Criados inicialmente para entreter adultos, com o passar do tempo, os contos de fada foram transformados e adequados à linguagem infantil.
Além dessa função de entretenimento, ouvir e narrar histórias pode ser um instrumento terapêutico na medida em que nos possibilita lidar com os conflitos internos e buscar soluções, assim como fazem os personagens fictícios. Nos contos, os locais mais estranhos e distantes são, ao mesmo tempo, familiares e nos levam para dentro de nós mesmos, suscitando questões existenciais importantes, como: o amor pela vida, o medo da morte, a inveja ou a necessidade de ser amado. Através deles, podemos experimentar os sentimentos de compreensão, esperança ou angústia, sem que tenham sido explorados racionalmente. Caminhando pela narrativa, percebemos que bruxas e monstros representam nossos próprios temores e dificuldades. O herói, muitas vezes frágil no início, deve passar por provas e desafios e enfrentar o mundo, assim como o ego necessita de várias experiências para integrar a personalidade.
As histórias desenvolvem o potencial criativo e estimulam a solução de problemas, uma vez que os heróis sofrem, lutam e triunfam, passando a mensagem que qualquer pessoa pode alcançar seu objetivo. Através da identificação com os personagens, é possível se reconhecer, ao mesmo tempo, pequeno e indefeso, mas também corajoso e destemido, pronto para superar os obstáculos e perdas da vida. Por isso, os contos antigos, sem autor determinado e que não especificam diretamente qual o tempo, o lugar ou quem são os personagens devem ser preferidos em relação aos que apresentam detalhes excessivos: “Era uma vez, num reino muito distante, uma princesa que tinha um segredo...”. A ausência de detalhes específicos abre espaço para a subjetividade de quem escuta a história. Cada um vai imaginar os detalhes e preenchê-la com características e angústias próprias, permitindo que questões pessoais sejam trabalhadas.



"Encenando o personagem favorito"
Na prática, podemos utilizar os contos de fada de maneiras diversas: apresentando vários contos e pedindo à pessoa que escolha aquele com o qual se identifica, ou trabalhando o conto preferido da infância, por exemplo. Outra alternativa seria observar o conflito que a pessoa esteja vivenciando e sugerir um conto cujo personagem esteja passando por conflito semelhante. A partir da história, propõe-se uma forma de expressão que seja adequada para trabalhar o conflito identificado. Isso pode ser feito através de desenho, pintura, modelagem, dramatização, entre outras: por exemplo, desenhar o personagem com que mais se identificou. Desta forma, é possível observar como a pessoa se sente na própria história: como o vilão que é temido por todos, a princesa indefesa que aguarda a chegada do príncipe ou o herói destemido, que sai do isolamento para enfrentar seus obstáculos? Podemos também sugerir que seja representada uma cena marcante da história a qual, muitas vezes, tende a ser semelhante ao conflito vivenciado pela pessoa no momento. No conto “O Patinho Feio”, por exemplo, é possível trabalhar sentimentos de inadequação e abandono e promover o resgate da autoestima. No conto “Cinderela”, pode-se observar questões relacionadas à rivalidade fraterna, ao rompimento com a mãe para vivenciar seu processo de individuação, e à transcendência, a partir da autoaceitação.
Certa vez, atendi um garotinho que sofria com a separação dos pais e demonstrava um profundo sentimento de abandono, que procurava negar. Através do conto “João e Maria”, experimentou a sensação de ser deixado para trás, entrou em contato com as diferenças percebidas entre os pais (um mais permissivo e o outro mais exigente) e pôde experimentar seu lado herói, na medida em que precisava encontrar uma saída para fugir da “casa da bruxa”. Sugeri que, a partir desse conto, ele pudesse construir sua própria casa e depois confeccionar fantoches para representar sua família. Assim, ele pôde experimentar o sentimento de abandono, num ambiente protegido e seguro, e reconstruir-se no símbolo da casa, trabalhando a segurança e a confiança que seriam necessárias para seguir em frente. Ao representar sua família e, posteriormente, dramatizar cenas cotidianas a partir das emoções suscitadas pelo conto, ele pode ressignificar e elaborar questões que, até então, só conseguia negar.

"A casa de João e Maria" 
Isso tudo é possível porque os contos nos auxiliam a resgatar nossa própria história. Nós, como terapeutas, escutamos muitas histórias... E, à medida que apresentamos outras, com as quais as pessoas possam se identificar, possibilitamos a elas que se observem pela perspectiva dos personagens escolhidos e vivenciem o conflito de outra forma, conseguindo assim narrar suas próprias dores...
 Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.
A Equipe Não Palavra te aguarda!
Referências Bibliográficas
CORSO, Diana Lichtenstein. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: Artmed, 2006.
SOUZA, Suzana Maria Ortiz de. Os Contos de fadas e o processo de individuação nas crianças. Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: http://www.arteterapia.org.br/pdfs/oscontosdefadaseoprocessodeindividuacao.pdf


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Sobre a autora: Janaína de Almeida Sérvulo

Graduada em Psicologia pela UFMG, com especialização em Arteterapia pela FAVI, em convênio com o INTEGRARTE.

Atua como psicóloga e arteterapeuta em clínica particular em Belo Horizonte-MG e na rede pública da região metropolitana. Experiência de mais de 15 anos com atendimento individual e em grupo a crianças, adolescentes e adultos.
Para conhecer mais sobre seu trabalho, visite a página do facebook: @artisticamente7
Este é o quarto texto de Janaína para o blog Não Palavra. 
Não deixe de conferir os anteriores!


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

GRANDES ARTISTAS NA PRÁTICA DA ARTETETERAPIA: EDWARD HOPPER



Por Eliana Moraes (MG) RJ
naopalavra@gmail.com

A prática da Arteterapia pode ser bastante enriquecida quando acionamos como estímulos projetivos as obras de grandes artistas nas mais variadas linguagens da arte. Isso se dá porque o artista é:


“‘um homem coletivo que exprime a alma inconsciente e ativa da humanidade’. No mistério do ato criador, o artista mergulha até as funduras imensas do inconsciente. Ele dá forma e traduz na linguagem de seu tempo as intuições primordiais e assim, fazendo, torna acessíveis a todos as fontes profundas da vida.” (SILVEIRA, 2007)

Sendo suas obras a forma traduzida pelo artista de conteúdos da alma inconsciente e ativa da humanidade, estas imagens possuem um grande potencial projetivo e na prática se mostram estímulos bastante acessíveis aos que chegam para a clínica da Arteterapia, sobretudo aqueles que chamo de “pacientes leigos”. 

Neste pensamento tenho me dedicado à pesquisa de artistas e suas expressões de conteúdos que fazem eco àquilo que escuto em minha clínica. Este repertório me compõe como arteterapeuta, acionando-o quando entendo que um artista possa servir como uma espécie de “interlocutor”, aquecendo o diálogo do paciente consigo mesmo em seu processo de autoconhecimento. 

Tenho me dedicado também à produção de conteúdos para o Não Palavra, em ambientes virtuais ou presenciais, que possam colaborar e instrumentalizar arteterapeutas a explorarem este estilo de trabalho. 

O protagonista de hoje é Edward Hopper, que me foi apresentado na escola de psicanálise que frequento e desde então tem atravessado minhas reflexões. 

Hopper: o pintor da solidão 


Edward Hopper (EUA, 1882-1967), foi um pintor, artista gráfico e ilustrador que ficou bastante conhecido por suas misteriosas pinturas de representações realistas da solidão na contemporaneidade. Em cenários rurais e urbanos, suas obras refletem sua visão pessoal sobre a vida moderna americana, em meados do século XX. Hopper viveu os tempos da Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão Americana de 1929 e a Segunda Grande Guerra, e naturalmente este contexto histórico influenciou grande parte de sua obra, que em geral mostra pessoas em cenários da vida cotidiana. 



“... Hopper traçou insistentemente em sua pintura a solidão do sujeito situado na margem, na beira, no umbral, no limiar em relação ao real. Um poderoso silêncio pode ser escutado em suas telas...

Precursoras do hiper-realismo norte-americano, suas telas são muito conhecidas e algumas se tornaram verdadeiros ícones da arte norte-americana... Hopper pinta o mundo humano com uma acentuada frieza, e seus personagens parecem estar absortos por uma espécie de falta de sentido... 


Em suas telas, não se vê vestígio de amor ou sexo. Entre os diferentes personagens há apenas convívio, e todos parecem estar diante de um supremo impacto. Além disso, todos parecem estar profundamente sós, mesmo quando partilham alguma atividade. Em seu livro sobre o pintor, Maria Constantino afirma que ‘as figuras solitárias que habitam as pinturas de Hopper parecem estar perdidas em pensamento’. Não há troca de olhares entre eles, nem de sorrisos.” (JORGE)

Embora Hopper tenha pintado cenas de seu cotidiano, sua obra nos impacta por  retratarem cenas extremamente atuais de um mundo contemporâneo em crise. Aqui me lembro de Kandinsky que se refere à sensibilidade e intuição singular do artista, tornando-o uma espécie de profeta da humanidade: 

“Então sempre surge um homem, um de nós, em tudo nosso semelhante, mas que possui uma força de ‘visão’ misteriosamente infundida nele. Ele vê o que será e o faz ver. Por vezes desejaria libertar-se desse dom sublime, dessa pesada cruz sob a qual verga. Mas não pode. Apesar das zombarias e do ódio, atrela-se à pesada carroça da humanidade, a fim de soltá-la das pedras que a retêm e, com todas as suas forças, impele-a para a frente.... Aquele que, entre eles, é capaz de olhar além dos limites da parte a que pertence é um profeta para os que o cercam.” KANDINSKY



Hopper faleceu em 1967 e não pôde acompanhar a evolução tecnológica e sociocultural que se deu nas últimas décadas e hoje podemos identificar. O sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, pensador da modernidade líquida, diz que “Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo”, o que nos faz pensar a obra de Hopper de forma extremamente atual ao retratar pessoas alienadas em si mesmas, sem ligações afetivas, que mesmo na presença de outros mostram-se distraídas, desinteressadas por quem está ao seu lado, vazias, transparecendo em suas feições um enorme sentimento de solidão. 

Quantos de nós não podemos observar cenas como estas em nosso próprio cotidiano?


O arteterapeuta e a solidão nos tempos atuais 


“A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.” Vinícius de Moraes

A solidão, direta ou indiretamente, é um tema recorrente na clínica, sendo assim essencial que o terapeuta busque embasamentos históricos e coletivos que orientem sua escuta individual perante um cliente/paciente. Afinal somos todos sujeitos inseridos na cultura.

A arte, em suas mais variadas linguagens, e o artista em sua capacidade de ver além do óbvio, cumprem a função de perceber, dar forma, traduzir na linguagem de seu tempo e denunciar aquilo que o ser humano tem produzido para si, lançando o convite para a sua conscientização e responsabilização. 

Na clínica da Arteterapia,  o arteterapeuta pode ter como recurso a utilização destas imagens como espelhamento (estímulos projetivos) àqueles que se apresentam com a queixa de solidão. O artista e a obra servem como “interlocutores” no fluxo de pensamentos daquele sujeito, estimulando sua reflexão e elaboração. Mas sobretudo lançando o convite à conscientização do que Vinícius tão bem nomeou: a pior solidão é a do ser que se ausenta, se defende, se recusa e se encerra em si mesmo. Em seguida, o convite à responsabilização, por si, suas emoções e pelas relações que lhe compõem. 

Penso que o sair de si e oferecer afeto é um ato de resistência nesta contemporaneidade. Oferecer um espaço terapêutico em que os sujeitos possam levantar o olhar do estabelecido socialmente para enxergar outros possíveis, faz parte desta micropolítica. Promover e sustentar encontros entre pessoas, sobretudo estimulados pela arte, é ser agente de uma contracultura.  

Concluo registrando minha escuta para a fala de arteterapeutas da minha rede de interlocução que (se) perceberam o quão solitário pode ser o ofício do terapeuta se não buscar seus pares para trocas, debates, estudos e construção de conhecimento. Agradeço a companhia destas parceiras que tanto me compõem e deixo aqui o convite aos terapeutas que não encerrem-se em si mesmos e busquem em outros aquele suporte que todo terapeuta necessita para a sustentação de seu ofício.

Para saber mais sobre conteúdos como este, escreva para naopalavra@gmail.com e se inscreva em nossa mala direta. 


Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
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A Equipe Não Palavra te aguarda! 

Referências Bibliográficas:

JORGE, Marco Antonio Coutinho. Fundamentos da Psicanálise: de Freud a Lacan. Volume 2: A clínica da fantasia.

KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte.

SILVEIRA, Nise. Jung Vida e Obra