segunda-feira, 11 de setembro de 2017

RESGATANDO A SINGULARIDADE NO ENCONTRO DA ARTE E GESTALT





Por Rosangela Nery - RJ
rosanery1975@hotmail.com


O desafio

Mais do que um convite, encarei como desafio escrever para o blog “Não Palavra”. Eliana Moraes, idealizadora do blog e coordenadora do mesmo, alguém que admiro demais, e que me inspira muito, por falar com propriedade sempre que se propõe a isso e alguém que compartilho princípios de vida para além da profissão de Psicóloga.

A proposta


Embora não tenha a formação de arteterapeuta, fui e sou atravessada cotidianamente pela arte e pelas técnicas expressivas, que comecei a usar de forma intuitiva no meu trabalho com usuários do Instituto Phillipe Phinel, hospital psiquiátrico que embora ainda tenha uma estrutura hospitalar,  caminha para um serviço territorial, uma das propostas da reforma psiquiátrica, a partir da lei n@ 10.216/01. Com a ideia de regionalização, o instituto localizado em Botafogo, no Rio de Janeiro, funciona 24h como um serviço de porta aberta, atendendo demandas de vários lugares da cidade e ainda outros estados. Conta com profissionais de diversos saberes,  alocados em diferentes setores do Instituto que se reúnem, e juntos pensam na melhor forma de intervir com o paciente em tratamento: no ambiente familiar, social, ou através da inserção em oficinas de renda, de arte e outros. O objetivo dessa nova política de organização é não só amenizar o sofrimento agudo de um paciente internado, em crise, mas também possibilitar que ele volte ao seu círculo social, à sua vida.


Neste contexto me dediquei ao Box de Atividades, presente no pátio de convivência. Um lugar pequeno, simples, mas, de grande potência e expressão de subjetividade. A abordagem que trago para dialogar com a Arte é a Gestalt Terapia, que entendo como uma permissão para ser criativo e que traz como ferramenta metodológica básica o “experimento”.

Durante a internação o paciente experimenta diversas sensações que parecem banais, mas que são extremamente limitantes para que o mesmo possa lidar com situações da vida cotidiana. O medo e a angústia os atormentam de uma forma que os deixam paralisados.

Caso clínico: da compulsão à criação - a arte ressignificando


“O que tem pra fazer hoje?” era a fala constante de Laura*, enquanto olhava para os lados a procura de  diversas possibilidades já apresentadas anteriormente no espaço do Box de Atividades. Ela apresentava um quadro compulsivo, movido por impulsos, que a fez internar em julho de 2014, e a fazia sentir-se sempre prejudicando sua vida por agir dessa forma. Ao chegar ao Box vivenciava um ciclo de perdas e ganhos, que insistia em se repetir fazendo-a não acreditar mais em si mesma. Diante da atividade sugerida ela dizia: “ vou fazer o mais fácil “ , “quero fazer uma casa, mas é difícil” “não consigo”, e penso o quanto realmente deve ser difícil, pois Laura é designer de produtos, o que a torna mais exigente com suas possibilidades. Nesse momento pensava e falava de suas escolhas, e que o caminho que vinha escolhendo não era o caminho que deseja pra si. Percebi que Laura está “sem contorno”, então apresentei à ela as mandalas para colorir, algumas com grau de dificuldade mais avançados, (como por eles é assim denominado) , por se tratar de curvas ou figuras mais complexas.  


Laura passou a buscar de forma também compulsiva a pintura de mandalas, sempre com o relato de que era uma forma de aplacar sua ansiedade, relembrar algo significativo para ela e também por ocupar o seu tempo ocioso ali na internação. Laura chegou a pintar 30 mandalas em apenas uma  manhã, o que me fez começar a pensar em outras possibilidades para ela. 

Nesse momento, foi possível inserir a proposta do desenho livre ,  que fez Laura novamente experimentar a beleza de suas criações já fornecidas para o mundo do designer, assim como também ouvi-la falar de suas filhas que a abandonaram nesse lugar frio e inóspito, sem que ao menos lhe dessem um telefonema. Laura experimentava uma grande angústia e pôde falar sobre isso e do quanto estava doendo se sentir sozinha num lugar tão cheio de  gente.  



Laura esteve internada no Phinel por longos 12 meses, um período de enfrentamento de medos, angústias e impossibilidades de nem pensar em sair sozinha. Depois de um tempo (8 meses), Laura quase não ia mais ao Box, a não ser para me dar bom dia e perguntar como eu estava e ainda dizer que sentia falta de conversar comigo , mas que naquele momento estava gostando muito de frequentar o CAIS**, e interagir com outros usuários  que já estavam na porta de saída da internação, assim como ela. Laura não podia pensar na possibilidade de sair sozinha, nem ao menos de ir comer no refeitório, porém através  dos nossos passeios externos, onde de uma forma muito carinhosa me comprometi em  ficar sempre ao seu  lado  e que se precisasse de alguma coisa , ali eu estaria. Laura passou a perceber o quanto era possível retomar sua autonomia. Como muitos outros, teve e tem um caminho a percorrer. Hoje encontra-se morando num hostel, continua frequentando a cooperativa e precisou realmente seguir sua vida sem suas filhas. Meu trabalho com Laura, além de possibilidade de criar vínculo, foi de mostrar-lhe que o medo pode paralisar, mas também pode motivar, e foi essa motivação que construí junto com Laura, nesse processo de ressignificação. 


Pela fluidez e espontaneidade que ambas, Arte e Gestalt se entrelaçam, caminhando na mesma direção. Vejamos o que afirma Rhyne (2000), sobre essa totalidade:  


"O respeito e a genuína curiosidade pela singularidade de cada um, a postura fenomenológica e não-interpretativa na leitura dos trabalhos produzidos, a importância de observar e relacionar-se tanto com a linguagem das formas quanto com a linguagem simbólica, e tanto com o processo quanto com as reflexões posteriores sobre este processo, a ênfase nos princípios da Psicologia da Gestalt de procurar perceber a configuração total das partes que constitui um todo ao em vez de cada parte isoladamente, a crença no poder da atividade expressiva de ser tanto um processo integrador como fonte de aprendizado sobre si mesmo." 


*nome fictício da paciente citada 


** Associação dos amigos do CAIS, cooperativa criada em 1997, que atua na área de saúde mental e funciona dentro do Instituto Phillipe Phinel. Tem por finalidade contribuir para a transformação da cultura que estigmatiza a loucura, promovendo a inclusão social do diferente e o exercício da cidadania. Sua missão é desenvolver e financiar projetos sócio-reabilitativos que promovam a capacitação profissional dos usuários de saúde mental, estimular e impulsionar ações que visem o crescimento do Cais (hospital-dia do Instituto).


Caso você tenha se identificado com a proposta do “Não palavra abre as portas” e se sinta motivado a aceitar o nosso convite, escreva para naopalavra@gmail.com
Assim poderemos iniciar nosso contato para maiores esclarecimentos quanto à proposta, ao formato do texto e quem sabe para um amadurecimento da sua ideia.



A Equipe Não Palavra te aguarda!


Referência Bibliográfica:


A arte como viés no processo ressignificação do paciente com transtorno de ansiedade. Disponível em:
http://artigos.netsaber.com.br/resumo_artigo_47085/artigo_sobre_a-arte-como-vies-no-processo-de-resignificacao-do-paciente-com-transtorno-de-ansiedade-


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Sobre a autora: Rosangela Nery




Servidora pública municipal na função de técnica de enfermagem do IMPP, lotada atualmente no setor infanto juvenil.

Psicóloga, pós graduanda em Ciência, Arte e Cultura pelo IOC - Instituto Oswaldo Cruz - FIOCRUZ e pós graduanda em Saúde Mental e atenção Psicossocial pela ENSP - Escola Nacional de saúde pública - FIOCRUZ.

Atendimento individual à adolescentes e adultos no Espaço SER- Sentir, Experimentar e Recriar em Copacabana.







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